quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Vocação Externa

A Bíblia não faz uso do termo “externa”, mas fala claramente de uma vocação que não é eficaz. Esta é pressuposta na grande comissão, como se acha em Mc 16.15, 16: “Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura. Quem crer e for batizado será salvo: quem, porém, não crer será condenado”. A parábola das bodas, em Mt 22.2-14, ensina claramente que alguns convidados não compareceram, e conclui com as bem conhecidas palavras: “Porque muitos são chamados, mas poucos escolhidos”. A mesma lição é-nos ensinada na parábola da grande ceia, em Lc 14.16-24. Outras passagens falam explicitamente de uma rejeição do Evangelho, Jo 3.36; At 13.46; 2 Ts 1.8. Ainda outras falam do terrível pecado da incredulidade, em termos que mostram que havia alguns que o cometeram, Mt 10.15; 11.21-24; Jo 5.40; 16.8,9; 1 Jo 5.10. A vocação externa consiste na apresentação e oferta da salvação em Cristo aos pecadores, juntamente com uma calorosa exortação a aceitarem a Cristo pela fé, para obterem o perdão dos pecados e a vida eterna.

1. ELEMENTOS NELA CONTIDOS.

a. Uma apresentação dos fatos do Evangelho e da doutrina da redenção. O método de redenção revelado em Cristo deve ser exposto com clareza em todas as suas relações. O plano divino de redenção, a obra salvadora de Cristo e as operações renovadoras e transformadoras do Espírito Santo devem ser interpretados segundo as suas relações mútuas. Deve-se ter em mente, porém, que uma simples apresentação das verdades da redenção, não importa quão bem feita, ainda não constitui o chamamento do Evangelho. Não é somente fundamental, mas é até uma parte importante dele. Ao mesmo tempo, de maneira nenhuma constitui a totalidade desse chamamento. De acordo com a nossa concepção reformada (calvinista), também lhe pertencem os seguintes elementos.

b. Um convite ao pecador para aceitar a Cristo com arrependimento e fé. A descrição do método de salvação deve ser suplementada por um fervoroso convite ao pecador (2 Co 5.11, 20) para arrepender-se e crer, isto é, para aceitar a Cristo pela fé. Mas, a fim de que esta vinda a Cristo não seja entendida num sentido superficial, como muitas vezes os avivalistas a apresentam, a verdadeira natureza do arrependimento e da fé que se requerem deve ser exposta claramente. Deve-se deixar perfeitamente claro que o pecador não tem poderes para arrepender-se e crer verdadeiramente, mas que é Deus que efetua nele “tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade”

c. Uma promessa de perdão e salvação. A vocação externa contém igualmente uma promessa de que serão aceitos todos os que cumprirem as condições, não com suas forças, mas pelo poder da graça de Deus produzida nos seus corações pelo Espírito Santo. Os que pela graça se arrependem dos seus pecados e aceitam a Cristo pela fé recebem a firme certeza do perdão dos pecados e da salvação eterna. Esta promessa, é bom que se note, nunca é absoluta, mas, antes, é sempre condicional. Ninguém pode esperar o seu cumprimento, a não ser no modo de fé e arrependimento verdadeiramente produzido por Deus.

Do fato de que estes elementos estão incluídos na vocação externa, pode-se inferir prontamente que aqueles que rejeitam o Evangelho, não apenas se recusam a acreditar em certos fatos e idéias, mas resistem à operação geral do Espírito Santo, que se relaciona com esta vocação, e pesa sobre eles a culpa do pecado de obstinada desobediência. Com sua recusa a aceitarem o Evangelho, aumentam a sua responsabilidade e entesouram ira sobre si, para o dia do juízo, Rm 2.4,5. Que os elementos supracitados estão realmente incluídos na vocação externa, evidenciam-se as seguintes passagens da Escritura: (a) De acordo com At 20.27, Paulo considera a declaração de todo o conselho de Deus como uma parte do chamamento, e, Ef 3.7-11 ele volta a relatar alguns dos pormenores que tinha declarado aos leitores. (b) Exemplos do chamamento ao arrependimento e à fé se encontram em passagens como Ez 33.11; Mc 1.15; Jo 6.29; 2 Co 5.20. (c) e a promessa está contida nas seguintes passagens, Jo 3.16-18, 36; 5.24,40.[1]

2. CARACTERÍSTICAS DA VOCAÇÃO EXTERNA.

a. É geral ou universal. Não se deve entender insto no sentido em que foi entendido por alguns dos antigos teólogos luteranos, qual seja, que o chamamento chegou de fato todos os viventes mais de uma vez no passado, como por exemplo, no tempo de Adão, no de Noé e nos dias dos apóstolos. Diz acertadamente McPherson: “Um chamamento dessa espécie não é um fato, mas uma simples teoria inventada com alguns propósitos”.[2] Nessa apresentação, os termos “geral” e “universal” não são empregados no sentido visado quando se diz que o chamamento do Evangelho é geral ou universal. Além disso, a referida apresentação é ao menos contrária aos fatos. A vocação externa é geral somente no sentido de que ela vem a todos os homens a quem o Evangelho é pregado, indiscriminadamente. Não está confinada a alguma idade ou classe de homens. Vem aos justos e aos injustos, aos eleitos e aos réprobos. As seguintes passagens testificam a natureza geral desta vocação: Is 55.1, “Ah! Todos vós os que tendes sede, vinde às águas; e vós os que não tendes dinheiro, vinde, comprai, e comei: sim, vinde comprai, sem dinheiro e sem preço, vinho e leite” cf. também os versículos 6 e 7. Em conexão com esta passagem, é concebível que se possa dizer que somente os pecadores espiritualmente qualificados são chamados: mas não se pode dizer isso de Is 45.22, “’Olhai para mim, sede salvos, todos os termos da terra; porque eu sou Deus, e não há outro”. Alguns também interpretam o conhecido convite de Jesus em Mt 11.28, “Vinde a mim todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei”, como limitado aos que se encontram verdadeiramente preocupados com os seus pecados e realmente contritos; mas não há base para tal limitação. O último livro da Bíblia conclui com um belo convite geral: “O Espírito e a noiva dizem: Vem. Aquele que tem sede, venha, e quem quiser receba de graça a água da vida” Ap 22.17. Que o convite do Evangelho não se limita aos eleitos, como alguns afirmam, é completamente evidenciado por passagens como estas: Sl 81.11-13; Pv 1.24-26; Ez 3.19; Mt 2.2-8, 14; Lc 14.16-24.

O caráter geral desta vocação também é ensinado nos Cânones de Dort.[3] Todavia, repetidamente esta doutrina encontrou oposição de indivíduos e grupos nas igrejas reformadas (calvinistas). Na Igreja Escocesa do século dezessete alguns negavam completamente o convite e oferta da salvação indiscriminado, enquanto outros queriam limita-los às fronteiras da igreja invisível.contra estes erros os homens de Marrow,* como Boston e os Erskine, o defendiam. Os que sustentavam a oferta universal eram chamados pregadores da nova luz, ao passo que os que defendiam a oferta particular, a oferta aos que já evidenciavam alguma porção da graça especial e, portanto, podiam ser contados entre os eleitos, eram conhecidos como pregadores da velha luz. Mesmo nos dias atuais, ocasionalmente nos defrontamos com alguma oposição sobre este ponto. Dizem que esse convite e oferta geral é incoerente com a doutrina da predestinação e com a da expiação particular, doutrinas nas quais, segundo se pensa, o pregador deve tomar seu ponto de parida. Mas a Bíblia não ensina que o pregador deve tomar seu ponto de partida nestas doutrinas, por importantes que sejam. Seu ponto de partida e sua autoridade estão na comissão do seu Rei: “Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura. Quem crer e for batizado será salvo; quem, porém, não crer será condenado”, Mc 16.15, 16. Além disso, é uma impossibilidade total alguém, ao pregar o Evangelho, limitar-se aos eleitos, como alguns gostariam que fizéssemos, uma vez que ele não sabe quais são as pessoas eleitas. Jesus sabia, mas não limitou desse modo o oferecimento da salvação, Mt 22.3-8, 14; Lc 14.16-21; Jo 5.38-40. Haveria uma real contradição entre as doutrinas reformadas (calvinistas) da predestinação e da expiação particular, de um lado, e a oferta universal da salvação, de outro Aldo, se esta oferta incluísse a declaração de que Deus tem o propósito de salvar todo ouvinte individual do Evangelho, e de que Cristo realmente expiou os pecados de cada um deles. Mas o convite do Evangelho não envolve tal declaração. Este é um gracioso chamamento para que o pecador aceite a Cristo pela fé, e uma promessa condicional de salvação. A condição só se cumpre nos eleitos, e, portanto, somente eles podem obter a vida eterna.

b. É um chamamento bona fide (de boa fé). A vocação externa é um chamamento feito com boa fé, um chamamento feito com seriedade de intenção. Não é um convite que vai de parceria com a esperança de que não será aceito. Quando Deus Chama o pecador para que aceite a Cristo pela fé, Ele o deseja ardentemente; e quando promete aos que se arrependem e crêem a vida eterna, Sua promessa é fidedigna. Isto decorre da própria natureza de Deus, de Sua veracidade. É blasfemo pensar que Deus pode ser acusado de equívoco e engano, que Ele diz uma coisa e quer dizer outra, que Ele argumenta fervorosamente com o pecador para que se arrependa e creia para a salvação e, ao mesmo tempo, não deseja isso em nenhum sentido da palavra. O caráter bona fide da vocação externa é comprovado pelas seguintes passagens da Escritura: Nm 23.19; Sl 81.13-16; Pv 1.24; Is 1.18-20; Ez 18.23, 32; 33.11; Mt 21.37; 2 Tm 2.13. Os Cânones de Dort o afirma explicitamente em III e IV, 8. Várias objeções têm sido apresentadas à idéia dessa oferta bona fide de salvação. (1) Uma objeção é derivada da veracidade de Deus. Diz-se que, segundo esta doutrina, Ele oferece o perdão dos pecados e a vida eterna àqueles a quem Ele não tem nenhuma intenção de fazer essas dádivas. Não há necessidade de negar que há uma real dificuldade neste ponto, mas esta é a dificuldade com que nos confrontamos toda vez que procuramos harmonizar a vontade decretatória com a vontade preceptiva de Deus, uma dificuldade que nem os oponentes podem resolver e que muitas vezes simplesmente ignoram. Todavia, não devemos supor que ambas são realmente contraditórias. A vontade decretatória determina o que cm toda a certeza virá a acontecer (sem implicar necessariamente que Deus tem prazer em tudo que acontece, como, por exemplo, em todo e qualquer tipo de pecado), ao passo que a vontade preceptiva é a norma da vida do homem, informando-o a respeito daquilo que é deveras agradável aos olhos de Deus. Ademais, deve-se ter em mente que Deus não oferece aos pecadores o perdão dos pecados e a vida eterna incondicionalmente, mas somente por meio da fé e da conversão; e que a justiça de Cristo, embora não destinada a todos, é, contudo, suficiente para todos. (2) Uma segunda objeção é derivada da incapacidade espiritual do homem. O homem, como ele é por natureza, não pode crer e arrepender-se, e, daí, parece zombaria pedir-lhe que faça isso. Mas, em conexão com esta objeção, devemos lembrar-nos de que, em última análise, a incapacidade do homem nas coisas espirituais, tem suas raízes em sua indisposição para servir a Deus. A real condição das coisas não é tal que muitos gostariam de arrepender-se e crer em Cristo, se tão somente pudessem faze-lo. Todos os que não crêem não estão querendo crer, Jo 5.40. Além disso, exigir dos homens arrependimento e fé em Cristo não é mais despropositado que exigir que guardem a lei. De maneira muito incoerente, alguns dos que se opõem à oferta geral da salvação com base na incapacidade espiritual do homem, não hesitam em colocar o pecador diante das exigências da lei, e até insistem em faze-lo.

3. A SIGNIFICAÇÃO DA VOCAÇÃO EXTERNA. Pose-se inquirir porque Deus vem a todos os homens indiscriminadamente, incluindo até os réprobos, com a oferta da salvação. Esta vocação externa responde a mais de um propósito.

a. Nela Deus afirma os Seus direitos sobre o pecador. Como soberano Governador do Universo, Ele tem autoridade para exigir o serviço do homem – e isso é matéria de direito absoluto. E embora o homem tenha rompido com Deus pelo pecado, e agora seja incapaz de prestar obediência espiritual ao seu justíssimo Soberano, sua transgressão voluntária não abrogou o direito de Deus ao serviço das Suas criaturas racionais. O direito que Deus tem de exigir obediência absoluta persiste, e Ele assevera este direito, tanto na lei como no Evangelho. Sua prerrogativa sobre o homem também acha expressão no chamamento para a fé e o arrependimento. E se o homem não dá atenção a este chamamento para a fé e o a este chamamento, desconsidera e menospreza a justa prerrogativa de Deus e, com isso, aumenta a sua culpa.

b. É o meio designado por Deus de levar os pecadores à conversão. Noutras palavras, é o meio pelo qual Deus reúne os eleitos, recolhendo-os das nações da terra. Como tal, tem que ser necessariamente geral ou universal, desde que nenhum homem pode indicar os eleitos. Naturalmente, o resultado final, é que os eleitos, e somente os eleitos, aceitam a Cristo pela fé. Não significa que os missionários podem partir e dar aos seus ouvintes a segura certeza de que Cristo morreu em favor de cada um deles e de que a intenção de Deus é salvar cada um deles; mas significa, sim, que eles podem levar as jubilosas e alvissareiras novas de que Cristo morreu pelos pecadores, de que Ele os convida a virem a Ele, e de que Ele oferece a salvação a todos aqueles que verdadeiramente se arrependem dos seus pecados e O aceitam com uma fé viva.

c. É também uma revelação da santidade, bondade e compaixão de Deus. Em virtude da Sua santidade, Deus em toda parte dissuade do pecado os pecadores, e em virtude da Sua bondade e misericórdia, adverte-os contra a autodestruição, posterga a execução da sentença de morte e os abençoa com o oferecimento da salvação. Não há dúvida de que este oferecimento gracioso em si mesmo é uma bênção para os pecadores, e não, como alguns o entendem, uma maldição. Sim, pois, a oferta da salvação revela claramente a compaixão divina por eles, e assim é descrito na Palavra de Deus, Sl 81.13; Pv 1.24; Ez 18.23, 32; 33.11; Am 8.11; Mt 11.20-24; 23.37. Ao mesmo tempo, é certo que muitos, por sua oposição, podem transformar esta bênção em maldição. Ela naturalmente aumenta o peso da responsabilidade do pecador, e, se não for aceita e desenvolvida, intensificará o seu julgamento.

d. Finalmente, acentua claramente a justiça de Deus. Se mesmo a revelação de Deus na natureza atende ao propósito de impedir qualquer escusa que os pecadores pudessem estar inclinados a apresentar, Rm 1.20, isto é muitíssimo verdadeiro quanto à revelação especial do método de salvação. Quando os pecadores desprezam a clemência de Deus e rejeitam a Sua graciosa oferta de salvação, a enormidade da sua corrupção e culpa e a justiça de Deus ao condena-los ficam expostas com a máxima clareza.

QUESTIONÁRIO PARA PESQUISA: 1. Em quais casos os reformados (calvinistas) presumem que a regeneração precede até mesmo à vocação externa? Como relacionam eles a vocação externa com a doutrina da aliança? 3. Com que fundamento os arminianos, por ocasião do Sínodo de Dort, afirmaram que as igrejas reformadas (calvinistas) não podem ensinar coerentemente que Deus com seriedade chama indiscriminadamente os pecadores para a salvação? 4. Como os católicos romanos concebem o chamamento pela Palavra? 5. Qual a concepção luterana da vocação? 6. É correto dizer (com Alexander, Syst. of Bibl. Theol. II, p. 357 e segtes.), que a palavra, por si mesma, é adequada para efetuar uma mudança espiritual, e que o Espírito Santo Apenas remove a obstrução que impede o seu recebimento?

BIBLIOGRAFIA PARA CONSULTA: Bavinck. Geref. Dogm. IV, p. 1-15; ibid., Roeping en Wedergeboorte; Kuyper, Dict. Dogm., De Salute, p. 84-92; Mastricht, Godgeleerdeheit III, p. 192-214; à Marck, Godgeleerdheid, p. 649-651; Witsius, De Verbonden III, c. 5; Hodge, Syst. Theol. II, p. 639-653; Dabney, Theology, p. 553-559; Schmid, Doct. Theol., p. 448-456; Valentine, Chr. Theol. II p. 194-204; Pope, Chr. Theol. II, p. 335-347; W. L. Alexander, Syst. of Bibl. Thel. II, p. 357-361.
(Teologia Sistemática – Louis Berkhof. 460)



[1] Cf. também os Cânones de Dort II, 5, 6; III e IV, 8.
[2] Chr, Dogm., p. 377.
[3] II, 5; III e IV, 8.
* “The Marrow men” (homens da Medula), grupo que se formou inspirado na obra publicada originariamente em 1646, de autor desconhecido, e reeditada em 1718 por alguns teólogos escoceses, dentre os quais Thomas Boston de Ettrick. O livro, intitulado The Marrow of Modern Divinity (A Medula da Teologia Moderna), expunha um calvinismo extremo e foi condenado em 1720 como antinomiano. Na controvérsia levantada houve pequena cisão, resultando na criação de um “Presbitério Associado”, em 1733, pela iniciativa de Ebenezer Erskine e outros três. Nota do tradutor.

Regeneração e Vocação Eficaz



A. Termos Bíblicos Para a Regeneração e Suas Implicações.


1. OS TERMOS QUE ENTRAM EM CONSIDERAÇÃO. O vocábulo grego para “regeneração” (palingenesia) só se acha em Mt 19.28 e Tt 3.5, e somente nesta última passagem se refere ao início da nova vida do cristão individual. A idéia deste início é mais comumente expressa pelo verbo gennao (com anothen em Jo 3.3), ou seu composto anagennao. Estas palavras significam, ou gerar, gerar de novo, ou dar à luz, dar nascimento, Jo 1.13; 3.3, 4, 5, 6, 7, 8; 1 Pe 1.23; 1 Jo 2.29; 3.9; 4.7; 5.1, 4, 18. Numa passagem, a saber, Tg 1.18, é empregada a palavra apokyeo, dar à luz, gerar, produzir. Ademais, a idéia da produção de uma nova vida é expressa pela palavra ktizo, criar, Ef 2.10, e o produto desta nova criação é chamada kaine ktisis (nova criatura), 2. Co 5.17; Gl 6.15, ou kainos anthropos (novo homem), Ef 4.24. Finalmente, o termo syzoopoieo, dar vida com, vivificar com, também é empregado num par de passagens, Ef 2.5; Cl 2.13.

2. IMPLICAÇÕES DESTES TERMOS. Estes termos levam consigo várias implicações importantes, para as quais se deve dirigir a atenção. (a) A regeneração é uma obra criadora de Deus e, portanto, é uma obra na qual o homem é puramente passivo, e na qual não há lugar para cooperação humana. Este é um ponto muito importante, visto que salienta o fato de que a salvação é totalmente de Deus. (b) A obra criadora de Deus produz uma vida nova, em virtude da qual o homem, vivificado com Cristo, participa da vida ressurreta e pode ser chamado nova criatura, havendo sido criado “em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas”, Ef 2.10. (c) Devemos distinguir dois elementos da regeneração, quais sejam, geração ou produção da nova vida, e o dar à luz ou o nascimento, pelo qual a nova vida é trazida à luz, retirada das suas recônditas profundezas. A geração implanta o princípio da nova vida na alma, e o novo nascimento faz que este princípio se ponha a afirmar-se em ação. Esta distinção é de grande importância para o exato entendimento da regeneração.

(Teologia Sistemática – Louis Berkhof. Pg. 462)

Emprego do Termo Regeneração na Teologia

1. NA IGREJA PRIMITIVA E NA TEOLOGIA CATÓLICA ROMANA. No modo de entender a Igreja Primitiva o termo “regeneração” não representava um conceito agudamente definido. Era utilizado para indicar uma mudança estreitamente ligada à purificação dos pecados, e não se fazia clara distinção entre a regeneração e a justificação. Identificada com a graça batismal, aquela era entendida especialmente como um designativo da remissão dos pecados, embora não estivesse excluída a idéia de certa renovação moral. Mesmo Agostinho não traçou uma linha incisiva aí, mas distinguia entre a regeneração e a conversão. Para ele, a regeneração inclui, em acréscimo à remissão do pecado, somente uma mudança inicial do coração, seguida por uma conversão posterior. Ele a concebia como uma obra estritamente monergista de Deus, na qual o sujeito humano não pode cooperar e à qual o homem não pode resistir. Para Pelágio, naturalmente, “regeneração” não significava o nascimento de uma nova natureza, mas o perdão dos pecados no batismo, a iluminação da mente pela verdade e a estimulação da vontade pelas promessas divinas. A confusão de regeneração e justificação, já visível em Agostinho, tornou-se mais pronunciada ainda no escolasticismo. De fato, a justificação tornou-se o conceito mais proeminente dos dois, era entendida como incluindo a regeneração, e era concebida como um ato no qual Deus e o homem cooperam. A justificação, de acordo com a descrição comum, inclui a infusão da graça, isto é, o nascimento de uma nova criatura ou a regeneração, e o perdão do pecado e a remoção da culpa ligando-se a ela. Contudo, havia uma diferença de opinião quanto a qual destes dois elementos é o primeiro fator lógico. Segundo Tomaz de Aquino, a infusão da graça vem primeiro, e o perdão de pecados, pelo menos em certo sentido, baseia-se nesta; mas segundo Duns Scotus, o perdão de pecados é o primeiro e serve de base para a infusão da graça. Ambos os elementos são efetuados pelo batismo, ex opere operato (pela ação do próprio objeto). A opinião de Tomaz de Aquino foi vitoriosa na igreja. Até nos dias atuais há uma certa confusão de regeneração e justificação na Igreja Católica Romana, confusão sem dúvida devida em grande parte ao fato de que a justificação não é concebida como um ato forense, mas como um ato ou processo de renovação. Nela o homem não é declarado, mas feito justo. Diz Wilmers, em seu Manual da Religião Cristã (Handbook of the Christian Religion): “Como a justificação é uma renovação ou regeneração, segue-se que o pecado é realmente destruído por ela, e não, como sustentavam os Reformadores, apenas coberto, ou não mais imputado”.

2. PELOS REFORMADORES E NAS IGREJAS PROTESTANTES. Lutero não escapou inteiramente da confusão da regeneração com a justificação. Além disso, ele falava da regeneração ou do novo nascimento num sentido muito amplo. Calvino também usava o termo num sentido muito compre, como um designativo de todo o processo pelo qual o homem é renovado, incluindo, além do ato divino que origina a nova vida, também a conversão (arrependimento e fé) e a santificação.[1] Vários escritores do século dezessete não distinguiam entre a regeneração e a conversão, e empregavam os dois termos um pelo outro, tratando daquilo que agora denominamos regeneração sob o nome de vocação ou chamamento eficaz.* Os Cânones de Dort também utilizam as duas palavras sinonimamente,[2] e a Confissão Belga parece falar da regeneração num sentido mais amplo ainda,[3] Este uso abrangente do termo “regeneração” muitas vezes levou à confusão e à desatenção a distinções muito necessárias. Por exemplo, enquanto que a regeneração e a conversão eram identificadas, ainda se declarava que a regeneração era monergista, a despeito do fato de que na conversão é certo que o homem coopera. A distinção entre a regeneração e a justificação já tinha ficado mais clara, mas gradativamente se tornou também necessário e costumeiro empregar o termo “regeneração” num sentido mais restrito. Turretino define dois tipos de conversão: primeiro, uma conversão “habitual” ou passiva, a produção de uma disposição ou um hábito da alma que, observa ele, poderia ser melhor denominada “regeneração”; e, segundo, uma conversão “real” ou “ativa”, na qual esta disposição ou este hábito implantado se torna ativo na fé e no arrependimento. Na teologia reformada (calvinista) do presente, a palavra “regeneração” é geralmente usada num sentido mais restrito, como um designativo do ato divino pelo qual o pecador é dotado de nova vida espiritual, e pelo qual o princípio dessa nova vida é posto em ação pela primeira vez. Assim concebida, ela inclui tanto a nova geração como o novo nascimento, em que a nova vida se torna manifesta. Contudo, em estrita harmonia com o sentido literal da palavra “regeneração”, o termo é às vezes empregado num sentido ainda mais limitado, para denotar simplesmente a implantação da nova vida na alma, sem as primeiras manifestações desta vida.

Na teologia “liberal” moderna, o termo “regeneração” adquiriu um sentido diferente. Schleiermacher distinguia dois aspectos da regeneração, a saber, a conversão e a justificação, e afirmava que na regeneração “uma nova consciência religiosa é produzida no crente pelo espírito cristão comum da comunidade, e a nova vida, ou a ‘santificação’, constitui o seu aparelhamento” (Pfleiderer). Esse “espírito cristão da comunidade”, é resultado de um influxo da vida divina, mediante Cristo, na igreja, e é chamado “Espírito Santo” por Schleiermacher. O conceito modernista foi bem exposto com estas palavras de Youtz: “A interpretação moderna inclina-se a regressar ao emprego simbólico do conceito de regeneração. As nossas realidades éticas lidam com caracteres transformados. Assim, a regeneração expressa uma mudança ética, radical, vital, e não um início metafísico absolutamente novo. A regeneração é um passo vital no desenvolvimento natural da vida espiritual, um radical reajustamento aos processos morais da vida”.[4] Os estudiosos da psicologia da religião geralmente deixam de distinguir entre regeneração e conversão. Consideram-na como um processo no qual a atitude do homem para com a vida muda do autocêntrico para o heterocêntrico. Ela acha sua explicação primariamente na vida subconsciente, e não envolve necessariamente nada de sobrenatural. Diz William James: “Converter-se, ser regenerado, receber a graça, ter experiência religiosa, obter segurança, são muitas das frases que denotam o processo, gradual ou súbito, pelo qual um ego até então dividido e conscientemente errado, inferior e infeliz, torna-se unificado e conscientemente certo, superior e feliz, em conseqüência do seu apego mais firme às realidades religiosas”.[5] Segundo Clark, “Os estudiosos concordaram em discernir três passos distintos da conversão: (1) Um período de ‘turbulência e tensão’, ou de senso do pecado, ou de sentimento de desarmonia interior, conhecida na teologia como ‘convicção de pecado’ e designada por James como ‘ doença da alma’. (2) Uma crise emocional que marca um ponto decisivo. (3) Uma subseqüente descontração aliada a uma sensação de paz, repouso e harmonia interior, aceitação da parte de Deus, e, não infreqüentemente, a reflexos motores e sensoriais de várias espécies”.[6]

(Teologia Sistemática – Louis Berkhof. Pg. 465)



[1] Inst. III.3,9.
* Cf. a Confissão de Fé Presbiteriana (Westminster), capítulo X. Nota do tradutor.
[2] III e IV.11.12.
[3] Art. XXIV.
[4] A Dictionary of Religion and Ethics, artigo Regeneração.
[5] Varieties of Religious Experience, p. 189.
[6] The Psichology of Religious Awakening, p. 38.

A Natureza Essencial da Regeneração

Relativamente à natureza da regeneração, há diversos conceitos errôneos que devem ser evitados. Podemos muito bem mencionar primeiro estes, antes de expor as qualificações positivas desta obra recriadora de Deus.

1. CONCEITOS ERRÔNEOS. (a) A regeneração não é uma mudança ocorrida na substância da natureza humana, como o ensinavam os maniqueus e, nos dias da Reforma, Flácio Illírico, que concebiam o pecado original como uma substância, a ser substituída por outra substância na regeneração. Nenhuma nova semente física, nenhum germe físico é implantado no homem: tampouco há qualquer adição ou subtração às faculdades da alma. (b) Também é simplesmente uma mudança ocorrida numa ou mais faculdades da alma, como, por exemplo, da vida emocional (sentimento ou coração), pela remoção da aversão às coisas divinas, como alguns conservadores a concebem; ou do intelecto, pela iluminação da mente que se acha obscurecida pelo pecado, como a consideram os racionalistas. Ela afeta o coração, compreendido no sentido bíblico da palavra, isto é, como o órgão central e totalmente dominante da alma, do qual “procedem as fontes da vida” (Pv 4.23). quer dizer que a regeneração afeta a natureza humana em sua totalidade. (c) Também não é uma mudança completa ou perfeita da natureza total do homem, ou de alguma parte dela, de sorte que ela não é mais capaz de pecar, como o ensinavam os anabatistas extremos e algumas outras seitas fanáticas. Não significa que, em princípio, ela não afeta a natureza inteira do homem, mas somente que não constitui a mudança completa, que é produzida no homem pela operação do Espírito Santo. Ela não abrange a conversão e a santificação.

2. CARACTERÍSTICAS POSITIVAS DA REGENERAÇÃO. Podem ser feitas as seguintes asserções positivas a respeito da regeneração:

a. A regeneração consiste na implantação do princípio da nova vida espiritual no homem, numa radical mudança da disposição dominante da alma, que, sob a influência do Espírito Santo, dá nascimento a uma vida que se move em direção a Deus. Em princípio, esta mudança afeta o homem completo: o intelecto, 1 Co 2.14, 15; 2 Co 4.6; Ef 1.18; Cl 3.10; a vontade, Sl 110.3; Fp 2.13; 2 Ts 3.5; Hb 13.21; e os sentimentos ou emoções, Sl 42.1; Mt 5.4; 1 Pe 1.8.

b. É uma transformação instantânea da natureza do homem, afetando imediatamente o homem todo, intelectual, emocional e moralmente. A afirmação de que a regeneração é uma mudança instantânea implica duas coisas: (1) que não é uma obra que vai sendo levada a efeito gradativamente na alma, como ensinam os católicos romanos e todos os semi-pelagianos; não há nenhum estágio intermediário entre a vida e a morte; ou a pessoa vive ou está morta; e (2) que não é um processo gradual como a santificação. É verdade que alguns escritores reformados (calvinistas) empregaram ocasionalmente o termo “regeneração” como incluindo até a santificação, mas isso foi no tempo em que a ordo salutis não estava tão completamente desenvolvida como está hoje.

c. Em seu sentido mais limitado, é uma mudança que ocorre na vida subconsciente. É uma secreta e inescrutável obra de Deus que o homem nunca percebe diretamente. A mudança pode ter lugar sem que o homem esteja cônscio dela momentaneamente, se bem que não é o que se dá quando a regeneração e a conversão coincidem; e mesmo mais tarde ele só pode percebe-la em seus efeitos. Isto explica por que um cristão pode, por um lado, lutar durante longo tempo com dúvidas e incertezas e, não obstante, pode, por outro lado, domina-las paulatinamente e ascender às alturas da segurança.

3. DEFINIÇÃO DE REGENERAÇÃO. Do que acima foi dito sobre o emprego atual da palavra “regeneração”, segue-se que se pode definir a regeneração de duas maneiras. No sentido mais restrito da palavra, podemos dizer: Regeneração é o ato de Deus pelo qual o princípio da nova vida é implantado no homem, e a disposição dominante da alma é tornada santa. Mas, a fim de incluir a idéia do novo nascimento, como também a da nova geração, será necessário complementar a definição com as seguintes palavras: “... e o primeiro exercício santo desta nova disposição é assegurado”.

(Teologia Sistemática – Louis Berkhof. Pg. 466)

A Vocação Eficaz em Relação à Vocação Externa e à Regeneração

        1. SUA INSEPARÁVEL CONEXÃO COM A VOCAÇÃO EXTERNA. Pode-se dizer que a vocação de Deus é uma só, e a distinção ente uma vocação externa e uma vocação interna ou eficaz simplesmente chama a atenção para o fato de que esta vocação única tem dois aspectos. Não significa que estes dois aspectos estão sempre unidos e sempre andam juntos. Não asseveramos, com os luteranos, que “a vocação interna é sempre concorrente com o ouvir a palavra”.[1] Significa, porém, que onde a vocação interna chega aos adultos, é medida pela pregação da Palavra. A mesma Palavra ouvida na vocação externa torna-se eficiente no coração, na vocação interna. Pela poderosa aplicação feita pelo Espírito Santo, a vocação externa passa direto para a vocação interna.[2] Mas,embora esta vocação esteja estreitamente relacionada com a vocação externa e forme uma unidade com ela, há certos pontos de diferença: (a) É uma vocação pela Palavra, salvadoramente aplicada pela operação do Espírito Santo, 1 Co 1.23, 24; 1 Pe 2.9; (b) É uma vocação poderosa, isto é, uma vocação que é eficaz para a salvação, At 13.48; 1 Co 1.23, 24; e (c) É sem arrependimento, isto é, não está sujeita a mudança e jamais será retirada, Rm 11.29.

2. CARACTERÍSTICAS DA VOCAÇÃO INTERNA. Devemos notar as seguintes características:

a. Ela age por meio da suasão moral, mais a poderosa operação do Espírito Santo. Surge a questão sobre se nesta vocação (como distinta da regeneração) a Palavra de Deus age de maneira criadora, ou pela persuasão moral. Pois bem, não há dúvida de que às vezes se diz que a Palavra de Deus age de maneira criadora, Gn 1.3; Sl 33.6, 9; 147.15; Rm 4.17 (embora se possa interpretar isto diferentemente). Mas estas passagens se referem à Palavra do poder de Deus, ao Seu mando cheio de autoridade, e não à palavra da pregação da qual nos ocupamos aqui. O Espírito Santo opera através da pregação da Palavra somente de maneira persuasiva, dando eficiência às suas palavras de persuasão, para que o homem ouça a voz do seu Deus. Isto decorre da própria natureza da Palavra , que se dirige ao entendimento e à vontade.[3] Deve-se ter em mente, porém, que esta suasão moral ainda não constitui a totalidade da vocação interna; requer-se, em acréscimo a isso, uma poderosa operação do Espírito Santo, aplicando a Palavra ao coração.

b. Ela opera na vida consciente do homem. Este ponto está muito intimamente relacionado com o anterior. Se a palavra da pregação não opera criadoramente, mas somente persuasiva, segue-se que ela só pode agir na vida consciente do homem. Ela se dirige ao entendimento, que o Espírito reveste de discernimento espiritual da verdade, e por meio do entendimento, influencia efetivamente a vontade, de modo que o pecador se volta para Deus. A vocação interna necessariamente redunda na conversão, isto é, num consciente abandono do pecado, rumo à santidade.

c. É teológica. A vocação interna é de caráter teológico, isto é, chama o homem para um certo fim: para a grande meta à qual o Espírito Santo está conduzindo os eleitos, e, conseqüentemente, também aos estágios intermediários do caminho para este destino final. É uma vocação para a comunhão de Jesus Cristo, 1 Co 1.9; para herdarem bênçãos, 1 pe 3.9; para a liberdade, Gl 5.13; para a paz, 1 Co 7.15; para a santidade, 1 Ts 4.7; para uma esperança única, Ef 4.4; para a vida eterna, 1 Tm 6.12; e para o reino e glória de Deus, 1 Ts 2.12.

3. RELAÇÃO DA VOCAÇÃO EFICAZ COM A REGENERAÇÃO.

a. Identificação de ambas na teologia dezessete. É um fato bem conhecido que na teologia do século dezessete a vocação e a regeneração muitas vezes são identificadas, ou, se não inteiramente identificadas, ao menos na medida em que a regeneração é considerada como inclusa na vocação. Diversos teólogos, dos mais antigos, têm um capítulo separado sobre a vocação, mas nenhum sobre a regeneração. Segundo a Confissão de Westminster, X.2, a vocação eficaz inclui a regeneração. Este conceito encontra alguma justificação no fato de que Paulo, que emprega a palavra “regeneração” somente uma vez, evidentemente a concebe como incluída na vocação em Rm 8.30. além disso, há um sentido em que a vocação e a regeneração se relacionam como causa e efeito. Contudo, devemos ter em mente que, ao dizermos que a vocação inclui a regeneração, ou que se relaciona casualmente com ela, não estamos pensando apenas naquilo que é tecnicamente denominado vocação interna ou eficaz, mas na vocação em geral, incluindo até mesmo uma vocação criadora. O extenso uso, nos tempos da Pós-Reforma, do termo “vocação”, em vez de “regeneração”, para designar o início da obra da graça na vida dos pecadores, deve-se ao desejo de salientar a estreita conexão entre a Palavra de Deus e a operação da Sua graça. E o predomínio do termo “vocação” na era apostólica encontra a sua explicação e a sua justificação no fato de que, no caso dos que, naquele período missionário, foram agregados à igreja, a regeneração e a vocação eficaz geralmente eram simultâneas, quando a mudança se refletia em sua vida consciente como um poderoso chamamento de Deus. Todavia, numa apresentação sistemática da verdade, devemos discriminar cuidadosamente entre a vocação e a regeneração.

b. Pontos de diferença entre a regeneração e a vocação eficaz. A regeneração, no sentido mais estrito da palavra, isto é, como nova geração, tem lugar na vida subconsciente do homem, e independe por completo de qualquer atitude que ele possa assumir com referência a ela. A vocação, por outro lado, dirige-se à consciência e implica certa disposição da vida consciente. Isto decorre do fato de que a regeneração age de dentro , enquanto que a vocação age de fora. No caso das crianças, falamos em regeneração, e não em vocação. Ademais, regeneração é uma operação criadora, hiperfísica do Espírito Santo, pela qual o homem é levado de uma condição para outra, de uma condição de morte espiritual para uma condição de vida espiritual. A vocação eficaz, por outro lado, é teológica, induz a nova vida e aponta numa direção que ruma para Deus. Ela assegura os exercícios da nova disposição e leva a nova vida à ação.

c. A ordem relativa da vocação e da regeneração. Talvez se compreenda melhor isto, se observarmos os seguintes estágios: (1) Logicamente, a vocação externa, que ocorre na pregação da Palavra (exceto no caso das crianças), geralmente precede à operação regeneradora do Espírito Santo, ou coincide com ela, operação pela qual a nova vida é produzida na alma do homem. (2) Depois, por uma palavra criadora, Deus gera a nova vida, mudando a disposição interna da alma, iluminando a mente, incitando os sentimentos e renovando a vontade. Neste ato de Deus, são implantados os ouvidos que capacitam o homem a ouvir o chamamento de Deus para a salvação das suas almas. Isto é regeneração no sentido mais restrito da palavra. Nela o homem é inteiramente passivo. (3) Tendo recebido os ouvidos espirituais, o chamamento de Deus pelo Evangelho é agora ouvido pelo pecador e é levado efetivamente ao coração, capacitando-o para compreendê-lo. O desejo de resistir é transformado num desejo de obedecer, e o pecador se rende à influência persuasiva da Palavra pela operação do Espírito Santo. Esta é a vocação eficaz, pela instrumentalidade da palavra da pregação, efetivamente aplicada pelo Espírito de Deus. (4) Finalmente, esta vocação eficaz assegura, pela verdade como meio, os primeiros exercícios santos da nova disposição que nasceu na alma. A nova vida começa a manifestar-se; a vida implantada resulta no novo nascimento. Esta é a consumação da obra de regeneração, no mais amplo sentido da palavra, e o ponto em que ela passa a ser conversão.

Agora, não devemos cometer o engano de considerar esta ordem lógica como uma ordem cronológica aplicável a todos os casos. Muitas vezes a nova vida é implantada nos corações das crianças muito tempo antes de poderem ouvir o chamamento do Evangelho; todavia, elas só são revestidas desta vida onde se prega o Evangelho. Sempre há, por certo, um chamamento criado por Deus, pelo qual a nova vida é produzida. No caso das que vivem sob a administração do Evangelho, existe a possibilidade de receberem elas a semente da regeneração muito antes de chegarem à idade da discrição e, portanto, muito antes também da penetração da vocação eficaz em sua consciência. Contudo, é muito improvável que, sendo regeneradas, vivam em pecado durante anos, e ainda depois de terem atingido a maturidade, sem darem quais quer evidências da nova vida nelas existente. Por outro lado, no caso das que não vivem sob a administração da aliança, não há razão para supor um intervalo entre o tempo da sua regeneração e o da sua vocação eficaz. Na vocação eficaz, ela se tornam imediatamente cônscias da sua renovação, e imediatamente vêem a semente da regeneração germinando para a nova vida. Isto significa que a regeneração, a vocação eficaz e a conversão coincidem.

(Teologia Sistemática – Louis Berkhof. Pg. 469)



[1] Valentine, Chr. Theol. II, p. 197, 198.
[2] Bavinck, Roeping em Wedergeboorte, p. 215.
[3] Bavinck, Roeping em Wedergeboorte, p. 217, 219, 221.

A Necessidade da Regeneração

       1. A NECESSIDADE É NEGADA PELA TEOLOGIA “LIBERAL” MODERNA. A necessidade da regeneração, como é entendida pela igreja cristã, é naturalmente negada na teologia “liberal” moderna.* Choca-se com o ensino de Rousseau, de que o homem é bom por natureza. Qualquer mudança radical ou qualquer virada completa ocorrida na vida de um homem, que é essencialmente bom, seria uma mudança para pior. Os “liberais” falam em salvação pelo caráter, e a única regeneração que reconhecem é uma regeneração concebida como “um passo vital no desenvolvimento da vida espiritual, um radical reajustamento aos processos morais da vida” (Youtz). Muitos ensinam uma série de renovações éticas. Diz Emerton: “O caráter assim obtido, comprovado e firmemente mantido, é redenção. Não há outra definição do termo que valha a pena. É a redenção do ser inferior do homem mediante o domínio exercido pelo seu ser superior. É o espiritual redimindo o material, o divino que há em todo homem redimindo o animal”.[1]

2. DECORRE DO QUE A ESCRITURA ENSINA A RESPEITO DA CONDIÇÃO NATURAL DO HOMEM. A santidade ou conformidade com a lei divina é a condição indispensável para a segura obtenção do favor divino, para chegar à paz de consciência e para gozar comunhão com Deus, Hb 12.14. Ora, por natureza, a condição é, segundo a Escritura, tanto na disposição como nos atos , exatamente o oposto daquela indispensável santidade. O homem é descrito como morto em delitos e pecados, Ef 2.1, e esta condição requer nada menos que uma recuperação da vida. Uma mudança interior radical é necessária, uma mudança que altere toda a disposição da alma.

3. A ESCRITURA A AFIRMA EXPRESSAMENTE. A Escritura não nos deixa em dúvida acerca da necessidade da regeneração, mas, antes, afirma essa necessidade nos mais claros termos. Diz Jesus: “Em verdade, em verdade te digo que se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus”, Jo 3.3.[2] Esta declaração do Salvador é absoluta e não deixa lugar para exceções. A mesma verdade é exposta com clareza nalgumas das declarações de Paulo, como, por exemplo, em 1 Co 2.14: “Ora, o homem natural não aceita as cousas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode entende-las porque elas se discernem espiritualmente”; Gl 6.15: “Pois nem a circuncisão é cousa alguma, nem a incircuncisão, mas o ser nova criatura”. Cf. também Jr 13.23; Rm 3.11; Ef. 2. 3, 4.

(Telogia Sistemática – Louis Berkhof. Pg. 470)



* O vocábulo “liberal” é belo demais (ver Sl 112.9, Almeida, Ver. E Corr.) para ser desperdiçado com correntes teológicas distanciadas da verdade da Palavra de Deus. Por isso geralmente o colocamos entre aspas. E o adjetivo “moderna”, qualificando o substantivo “teologia”, normalmente deve ser entendido no sentido de modernista. Em geral, a chamada teologia moderna vem exposta em contrate com formas teológicas conservadoras ou bíblicas. Aceitar pura e simplesmente a expressão “teologia moderna” parecerá uma confissão de que as correntes teológicas conservadoras e moderadas morreram. Nota do tradutor.
[1] Unitarian Thought, p. 193.
[2] Cf. também os versículos 5-7.

A Causa Eficiente da Regeneração

Há somente três conceitos fundamentalmente diferentes a considerar, e todos os demais são modificações destes.

1. A VONTADE HUMANA. De acordo com a concepção pelagiana, a regeneração é unicamente um ato da vontade humana, e é praticamente idêntica à auto-reforma. Com algumas diferenças ligeiras, este é o conceito da teologia “liberal” moderna. Uma modificação deste conceito é a dos semipelagianos e arminianos, que a consideram, ao menos em parte, como um ato do homem, cooperando com influências divinas aplicadas mediante a verdade. Esta é uma teoria sinergista da regeneração. Estes dois conceitos envolvem uma negação da depravação total do homem, tão claramente ensinada na Palavra de Deus, Jo 5.42; Rm 3.9-18; 7.18,23; 8.7; 2 Tm 3.4, e da verdade bíblica de que é Deus que inclina a vontade do homem, Rm 9.16; Fp 2.13.

2. A VERDADE. Segundo este conceito, a verdade, como um sistema de motivos, apresentada à vontade humana pelo Espírito Santo, é a causa imediata da mudança da impureza para a santidade. Esta era a idéia de Lyman Beecher e de Charles G. Finney. Este conceito presume que a obra do Espírito Santo difere da do pregador apenas em grau. Ambos agem somente pela persuasão. Mas esta teoria é inteiramente insatisfatória. A verdade só poderá ser um motivo para a santidade se for amada, e o homem natural não ama a verdade, mas a odeia, Rm 1.18,25. Conseqüentemente, a verdade, apresentada externamente, não pode ser a causa eficiente da regeneração.

3. O ESPÍRITO SANTO. O único conceito adequado é o da igreja de todos os séculos, de que o Espírito Santo é a causa eficiente da regeneração. Significa que o Espírito Santo age diretamente no coração do homem e muda sua condição espiritual. Não há nenhuma cooperação do pecador nesta obra. É obra do Espírito Santo, direta e exclusivamente, Ez 11.19; Jo 1.13; At 16.14; Rm 9.16; Fp 2.13. Então, a regeneração deve ser concebida monergisticamente. Só Deus age, e o pecador não participa em nada desta ação. Isto, naturalmente, não significa que o homem não coopera com o Espírito de Deus nos estágios posteriores da obra de redenção. É mais que evidente na Escritura que o faz.

(Teologia Sistemática – Louis Berkhof. Pg. 471)

O Emprego da Palavra de Deus Como Instrumento da Regeneração

Surge a questão sobre se a Palavra de Deus é utilizada como meio no ato de regeneração ou não; ou, como muitas vezes a questão é colocada, se a regeneração é mediata ou imediata.

1. A LEGÍTIMA IMPORTÂNCIA DA QUESTÃO. Requer-se cuidadosa discriminação, para evitar entendimento errôneo.

a. Quando os antigos teólogos reformados (calvinistas) insistiam no caráter imediato da regeneração, muitas vezes davam ao termo “imediato” uma conotação inexistente hoje. Alguns dos representantes da escola de Saumur, como Cameron e Pajon, ensinavam que, na regeneração, o Espírito ilumina e convence sobrenaturalmente a mente ou o intelecto de maneira tão poderosa, que a vontade não pode deixar de seguir os ditames dominantes do juízo prático. Ele opera imediatamente só no intelecto, e, por meio deste, age mediatamente na vontade. Segundo eles, não há nenhuma operação imediata do Espírito na vontade do homem. Em oposição a estes homens, os teólogos reformados geralmente acentuavam o fato de que, na regeneração, o Espírito opera também diretamente na vontade do homem, e não apenas por intermédio do intelecto. Hoje, a questão da regeneração mediata ou imediata é ligeiramente diversa, embora relacionada com o que acima foi exposto. Trata-se da questão do uso da Palavra de Deus como um meio, na obra da regeneração.

b. Deve-se observar cuidadosamente a forma da questão. A questão não é se Deus opera a regeneração por meio de uma palavra criadora. Admite-se geralmente que o faz. Tampouco é se Ele emprega a palavra da verdade, a palavra da pregação, para o novo nascimento, como distinta da geração divina do novo homem, isto é, para assegurar os primeiros exercícios santos da nova vida. A questão real é se Deus, ao implantar ou gerar a nova vida, emprega a palavra da Escritura ou a palavra da pregação como instrumento ou meio. No passado, a discussão desta matéria muitas vezes padeceu da falta de adequada discriminação.

2. CONSIDERAÇÕES QUE FAVORECEM UMA RESPOSTA NEGATIVA. Diz o dr. Shedd: “A influência do Espírito Santo é distinguível da influência da verdade; da do homem sobre o homem; e da de qualquer instrumento ou meio, seja qual for. Sua energia age diretamente sobre a alma humana propriamente dita. É influência de espírito sobre espírito; de uma das pessoas trinitárias sobre uma pessoa humana. Nem a verdade, nem algum outro ser humano pode operar assim, diretamente sobre a essência da alma”.[1] As seguintes considerações dão respaldo a este conceito:

a. A regeneração é um ato criador, pelo qual o pecador espiritualmente morto é devolvido à vida. Mas a verdade do Evangelho só pode agir de maneira moral e persuasiva. Tal instrumento não tem efeito sobre os mortos. Afirmar o seu uso pareceria implicar uma negação da morte espiritual do homem; coisa que, naturalmente, não está na intenção dos que tomam esta posição.

b. A regeneração tem lugar na esfera do subconsciente, isto é, fora da esfera da atenção consciente, ao passo que a verdade se dirige à consciência do homem. Ela só pode exercer a sua influência persuasiva quando a atenção do homem está posta nela.

c. A Bíblia distingue entre a influência do Espírito Santo e a da Palavra de Deus, e declara que aquela influência é necessária para o recebimento próprio da verdade, Jo 6.64, 65; At. 16.14; 1 Co 2.12-15; Ef 1.17-20. Observe-se particularmente o caso de Lídia, de quem diz Lucas: ela “nos escutava (ekouen, imperfeito); o Senhor lhe abriu (dienoixem, aoristo, ato simples) o coração para atender (prosechein, infinito de resultado ou propósito) às cousas que Paulo dizia”.

3. PASSAGENS BÍBLICAS QUE PARECEM PROVAR O CONTRÁRIO.

a. Em Tg 1.18 lemos: “Pois, segundo o seu querer, ele nos gerou pela palavra da verdade, para que fôssemos como que primícias das suas criaturas”. Esta passagem não prova que a nova geração é mediada pela Palavra de Deus, pois o termo ali empregado é apokyese, que não se refere ao ato de gerar, mas, sim, ao ato de dar nascimento. Os que acreditam na regeneração imediata não negam que o novo nascimento, em que a nova vida se manifesta inicialmente, é assegurado pela Palavra.

b. Pedro exorta os crentes a se amarem uns aos outros ardentemente, em vista do fato de que eles foram “regenerados, não de semente corruptível, mas de incorruptível, mediante a palavra de Deus, a qual vive e é permanente”, 1 Pe 1.23. Não é correto dizer, como alguns têm feito, que “a palavra”, neste versículo, é a palavra criadora, ou a segunda pessoa da Trindade, pois o próprio Pedro nos informa que tem em mente a palavra pregada aos destinatários da epístola, versículo 25. Mas é perfeitamente válido assinalar que mesmo gennao (vocábulo usado na citada passagem) nem sempre se refere ao gerar masculino, mas também indica o ato feminino de dar nascimento a filhos. Isto é perfeitamente evidenciado por passagens como Lc 1.13, 57; 23.29; Jo 16.21; Gl 4.24. Conseqüentemente, não há base para a asserção de que Pedro, na passagem em foco, refere-se ao ato inicial da regeneração, a saber, à geração. E se se refere à regeneração num sentido mais amplo, não oferece nenhuma dificuldade quanto à matéria aqui em consideração. A idéia de que ele se refere ao novo nascimento é favorecida pelo fato de que os destinatários da carta são apresentados como tendo nascido de novo de uma semente que evidentemente já tinha sido implantada na alma, cf. Jo 1.13. Não é necessário identificar a semente com a Palavra.

c. Às vezes a parábola do Semeador é apresentada em favor da idéia de que a regeneração se dá por meio da Palavra. Nesta parábola, a semente é a palavra do Reino. O argumento é que a vida está na semente e brota da semente. Conseqüentemente, a nova vida brota da semente da Palavra de Deus. Mas, em primeiro lugar, isto é errar o alvo, pois dificilmente significa que o Espírito ou o princípio da nova vida está encerrado na Palavra, exatamente como o germe vivo está encerrado na semente. Isto lembra um pouco a concepção luterana da vocação, segundo a qual o Espírito está na Palavra, de modo que a vocação seria sempre eficaz, se o homem não pusesse uma pedra de tropeço no caminho. E, em segundo lugar, isto é forçar um ponto que absolutamente não se acha no tertium comparationis (no terceiro elemento de comparação). O Salvador quer explicar nesta parábola como sucede que a semente da Palavra dá fruto nalguns casos, e noutros não. Só dá fruto nos casos em que ela cai em bom terreno, em corações preparados de modo tal que compreendem a verdade.

4. OS PERTINENTES ENSINOS DOS NOSSOS PADRÕES CONFESSIONAIS. É bom considerar aqui os seguintes trechos: Confissão Belga, artigos XXIV e XXXV; Catecismo de Heidelberg, perg. 54; os Cânones de Dort III e IV, artigos 11, 12, 17 e, finalmente, as Conclusões de Utrecht, adotados por nossa igreja em 1908. Nestas passagens é mais que evidente que os nossos escritos confessionais falam de regeneração num sentido amplo, incluindo tanto a origem da nova vida como a sua manifestação na conversão. É-nos dito até que a fé regenera o pecador.[2] Há trechos que parecem dizer que a Palavra de Deus serve de instrumento na obra de regeneração.[3] Todavia, vêm expressos em tal linguagem que permanece duvidoso se de fato ensinam que o princípio da nova vida é implantado na alma pela instrumentalidade da Palavra. Eles não discriminam cuidadosamente entre os vários elementos que distinguimos na regeneração. Nas Conclusões de Utrecht lemos: “Quanto ao terceiro ponto, o da regeneração imediata, o Sínodo declara que esta expressão pode ser usada em bom sentido, como no que as nossas igrejas sempre confessaram, contra os luteranos e a Igreja Católica Romana, que a regeneração não é efetuada por meio da Palavra ou dos Sacramentos como tais, mas, sim, pela toda-poderosa obra regeneradora do Espírito Santo; que, todavia, esta obra regeneradora do Espírito Santo não pode, nesse sentido, ser dissociada da pregação da Palavra, como se ambas fossem separadas uma da outra; pois apesar de nossa Confissão ensinar que não temos por que duvidar quanto à salvação dos nossos filhos que morrem na infância embora não tenham ouvido a pregação do Evangelho, e apesar de nossos padrões confessionais em parte alguma se expressarem sobre a maneira pela qual a regeneração é efetuada no caso destas crianças e outras – não obstante é certo, por outro lado, que o Evangelho é poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê, e que, no caso dos adultos, a obra regeneradora do Espírito Santo acompanha a pregação do Evangelho”.[4]

(Teologia Sistemática – Louis Berkhof. Pg. 474)



[1] Dogm Theol. II p. 500.
[2] Confissão Belga, artigo XXIV.
[3] Conf. Belga, art. XXIV e especialmente o art. XXVI; Cânones de Dort III e IV, artigos 12, 17.
[4] Os seguintes escritos e teólogos reformados ensinam a regeneração imediata: Synopsis Purioris Theologiae (dos professores de Leyden), 31:9; Mastricht, Godgeleerdheit VI.3, 26; Brakel, Redelijke Godsdienst I, p. 738. Contudo, vê-se que estas três autoridades usam o termo “imediato” num sentido diferente. Outros mais: Turretino, Opera XV.4, 23, 24; Shedd, Dogm. Theol. II, p. 500, 501; Hodge, Syst. Theol. III, p. 31; Kuyper, Dict. Dogm., De Salute, p. 74; Bavinck, Roeping en Wedergeboorte, p. 219 e segtes.; Vos, Geref. Dogm. IV, p. 46 e segtes.

Conceitos Divergentes de Regeneração

Conceitos Divergentes de Regeneração.

1. CONCEITO PELAGIANO. De acordo com os pelagianos, a liberdade e a responsabilidade pessoais do homem implicam que ele, em todos os tempos, tanto é capaz de desistir de pecar como de cometer pecado. Somente os atos de volição consciente são tidos como pecados. Em conseqüência, a regeneração consiste simplesmente numa reforma moral. Quer dizer que o homem, que antes optou pela transgressão da lei, agora opta por viver em obediência.

2. REGENERAÇÃO BATISMAL. Esta nem sempre é apresentada do mesmo modo.

a. Na Igreja de Roma. Segundo a Igreja Católica Romana, a regeneração inclui, não somente a renovação espiritual, mas também a justificação ou o perdão, e é efetuada por intermédio do batismo. No caso das crianças, a obra de regeneração é sempre eficaz; não assim no caso dos adultos. Estes podem prazerosamente aceitar e utilizar a graça da regeneração, mas também podem resistir-lhe e torna-la eficaz. Além disso, é sempre possível que aqueles que se apropriam dela venham a perde-la de novo.

b. Na Igreja Anglicana. A Igreja da Inglaterra não é unânime sobre este ponto, apresentando duas tendências diferentes. Os puseytas, assim chamados, concordam no essencial com a igreja de Roma. Mas há também uma influente parte da igreja que distingue duas espécies de regeneração: uma consiste meramente numa mudança da relação da pessoa com a igreja e com os meios de graça; a outra, numa mudança fundamental da natureza humana. De acordo com este grupo, somente a primeira delas é efetuada pelo batismo. Esta regeneração não inclui nenhuma renovação espiritual. Por meio dela, o homem apenas entra numa nova relação com a igreja, e se torna filho de Deus no mesmo sentido em que os judeus se tornaram filhos de Deus pela aliança, cujo selo era a circuncisão.

c. Na Igreja Luterana. Lutero e seus seguidores não conseguiram purificar a igreja do fermento de Roma sobre este ponto. De modo geral, os luteranos defendem, em oposição a Roma, o caráter monergista da regeneração. Consideram o homem inteiramente passivo na regeneração e incapaz de contribuir com alguma coisa para ela, embora os adultos lhe possam fazer resistência por muito tempo. Ao mesmo tempo, alguns ensinam que o batismo, agindo ex opere operato, é o meio usual pelo qual Deus efetua a regeneração. È o meio usual, mas não o único, pois a pregação da Palavra também pode produzi-la. Falam eles de duas espécies de regeneração, quais sejam, a regeneratio prima (primeira regeneração), pela qual a nova vida é gerada, e a regeneratio secunda (segunda regeneração, ou renovação), pela qual a nova vida é conduzida em direção a Deus. Enquanto que as crianças recebem a regeneratio prima por meio do batismo, os adultos, que recebem a primeira regeneração por meio da Palavra, tornam-se participantes regeneratio secunda através do batismo. Segundo os luteranos, a regeneração pode ser perdida. Mas, pela graça de Deus, pode ser restabelecida no coração do pecador penitente, e isto sem rebatismo. O batismo é um penhor da continuada prontidão de Deus para renovar o batizado e perdoar os seus pecados. Além disso, nem sempre a regeneração é realizada completa e imediatamente, mas muitas vezes é um processo gradual na vida dos adultos.

3. O CONCEITO ARMINIANO. De acordo com os arminianos, a regeneração não é exclusivamente obra do homem. É fruto da escolha do homem, pela qual ele se decide a cooperar com as influências divinas externas por meio da verdade. Estritamente falando, a obra do homem é anterior à de Deus. Os arminianos não admitem que haja uma obra prévia de Deus pela qual a vontade é inclinada para o bem. Naturalmente, eles acreditam também que se pode perder a graça da regeneração. Os arminianos wesleyanos alteraram este conceito no sentido de que salientam o fato de que a regeneração é obra do Espírito, ainda que em cooperação com a vontade humana. Eles admitem uma operação prévia do Espírito Santo para iluminar, despertar e atrair o homem. Contudo, eles também acreditam que o homem pode resistir a esta obra do Espírito Santo, e que, enquanto resistir, permanecerá em sua condição não regenerada.

4. O CONCEITO DOS TEÓLOGOS MEDIATÁRIOS. Este conceito segue modelo panteísta. Após a encarnação, não existem duas naturezas separadas em Cristo, mas somente uma natureza divino-humana, uma fusão da vida divina e humana. Na regeneração, uma parte dessa vida divino-humana é introduzida no pecador. Isto não requer operação separada do Espírito Santo toda vez que se regenera um pecador. A nova vida foi comunicada à igreja uma vez por todas, é agora uma permanente possessão da igreja, e passa da igreja para o indivíduo. A comunhão com a igreja também garante a participação da nova vida. Este conceito ignora inteiramente o aspecto legal da obra de Cristo. Além disso, torna impossível afirmar que alguém pôde ser regenerado antes de vir à existência a vida divino-humana de Cristo. Os santos do Velho Testamento não puderam ser regenerados. O pai desta idéia é Schleiermacher.

5. O CONCEITO TRICOTÔMICO. Alguns teólogos elaboraram uma peculiar teoria da regeneração baseados no conceito tricotômico da natureza humana. Este conceito parte do pressuposto de que o homem consiste de três partes – corpo, alma e espírito. Geralmente se admite, embora haja variações sobre este ponto, que o pecado tem sua sede somente na alma, e não no espírito (pneuma). Se tivesse penetrado o espírito, o homem estaria irremediavelmente perdido, exatamente como os demônios, que são seres puramente espirituais. O espírito é a vida superior e divina do homem, destinada a dominar e dirigir a vida inferior. Pela entrada do pecado no mundo, a influencia do espírito sobre a vida inferior é por demais enfraquecida; mas, pela regeneração é fortalecida novamente, e se restabelece a harmonia na vida do homem. Esta é, naturalmente, uma teoria puramente racionalista.[1]

6. O CONCEITO DO LIBERALISMO MODERNO. Os teólogos “liberais” dos dias atuais não têm todos o mesmo conceito de regeneração. Alguns falam em termos que lembram o conceito de Schleiermacher. Mais geralmente, porém, eles defendem uma idéia puramente naturalista. São avessos à idéia de a regeneração é uma obra sobrenatural e recriadora de Deus. Em virtude do Deus imanente, todo homem tem em si um princípio divino e, assim, possui potencialmente tudo que é preciso para a salvação. A única coisa necessária é que o homem tome consciência da sua divindade potencial, e que se submeta conscientemente à direção do princípio superior que nele há. A regeneração é uma simples mudança ética no caráter.

QUESTIONÁRIO PARA PESQUISA: 1. Que outros termos e expressões a Bíblia usa para designar a obra da regeneração? 2. A Bíblia distingue nitidamente entre vocação, regeneração, conversão e santificação? 3. Como explicar que a Igreja Católica Romana inclui até a justificação na regeneração? 4. Como diferem a regeneração e a conversão? 5. Existe o que chamam de graça proveniente, que antecede a regeneração e prepara para ela? 6. O que é a regeneração ativa, em distinção da regeneração passiva? 7. A passividade do homem na regeneração dura algum tempo? 8. A idéia de que a Palavra de Deus não é instrumento para a efetuação da regeneração faz a pregação da Palavra parecer fútil e completamente desnecessária? 9. Isto não leva às bordas do misticismo?

BIBLIOGRAFIA PARA CONSULTA: Kuiper, Dict. Dogm., De Salute, p. 70-83; ibid., Het Werk van den Heiligen Geest II, p. 140-162; Bavinck, Geref. Dogm. IV, p. 11-82; ibid., Roeping en Wedergeboorte; Mastricht, Godgeleerdheit VI, 3; Dick, Theology, Lect. LXVI; Shedd, Dogm. Theol.II, p. 490-528; Dabney, Syst. And Polem. Theol., Lect. XLVII: Vos, Geref. Dogm. IV, p. 32-65; Hodge, Syst. Theol. III, p. 1-40; McPherson, Chr. Dogm., p. 397-401; Alexander, Syst. Of Bib. Theol. II, p. 370-384; Litton, Introd. to Dogm. Theol. II, p. 313-321; Schmid, Doct. Theol. of the Ev. Luth. Church, p. 463-470; Valentine, Chr. Theol. II, p. 242-271; Raymond, Syst. Theol. II, p. 344-359; Pope, Chr. Theol. III, p. 5-13; Strong, Syst. Theol., p. 809-828; Boyce, Abstract of Syst. Theol., p. 328-334; Wilmers, Handbook of the Chr. Rel., p. 314-322; Anderson, Regeneration.
(Teologia Sistemática – Louis Berkhof. Pg. 477)



[1] Cf. Heard, The Tripartite Nature of Man.