quarta-feira, 23 de julho de 2014

Autoridade

Maravilhavam-se da sua doutrina, porque

os ensinava como quem tem autoridade e

não como os escribas. (Mc 1.22)

Um entendimento da autoridade da Bíblia é a quarta

pedra fundamental para uma cosmovisão cristã. Visto que

acreditamos que as Escrituras são verdadeiras, nós devemos

proclamá-las com convicção, sem transigir e sem nos

desculparmos. A Bíblia faz alegações ousadas e os cristãos

que crêem nela devem afirmá-las com ousadia.

Qualquer pessoa que fielmente e corretamente proclama

a Palavra de Deus irá falar com autoridade. Não é a nossa

autoridade. Nem ao menos é a autoridade eclesiástica ligada

ao oficio de um pastor ou professor na igreja. É uma

autoridade ainda maior que essa. Na medida que nosso

ensino reflete com precisão a verdade das Escrituras, ele tem

o peso total da própria autoridade de Deus. Este é um

pensamento surpreendente, mas é precisamente como

1Pedro 4.11 nos instrui em como manusear a verdade

bíblica: "Se alguém fala, fale de acordo com os oráculos de

Deus."

Esta é naturalmente uma profunda ameaça à tolerância

de uma sociedade que ama seu pecado e pensa que

transigência é uma coisa boa. Falar ousadamente e declarar

que Deus falou com finalidade não é moda nem politicamente

correto, mas se nós cremos verdadeiramente que a Bíblia é a

Palavra de Deus, como podemos manuseá-la de outra

maneira?

Muitos evangélicos modernos, amedrontados pelas

exigências do pós-modernismo, alegam crer nas Escrituras,

mas depois se abstém de proclamá-la com qualquer

autoridade. Eles estão dispostos a falar sobre a verdade das

Escrituras, mas na prática eles a desnudam de sua

autoridade, tratando-a apenas como mais uma opinião num

grande mix de idéias pós-modernas.

Nem as Escrituras nem o bom senso irão permitir tal

postura. Se a Bíblia é verdadeira então ela tem também

autoridade. Como verdade divinamente revelada ela carrega o

peso inteiro da própria autoridade de Deus. Se você alega

crer na Bíblia de algum modo, você finalmente tem de se

curvar à sua autoridade. Isto significa fazer dela o final

árbitro da verdade — a regra pela qual toda opinião é

avaliada.

A Bíblia não é apenas uma outra idéia para ser jogada

numa discussão pública e aceita ou rejeitada como o

indivíduo desejar. É a Palavra de Deus e exige ser recebida

como tal, com a exclusão de todas as outras opiniões.

Obviamente, essa maneira de avaliar a verdade é

impopular hoje. Segundo a nova tolerância pós-moderna,

todo mundo tem direito a ter sua própria opinião de acordo

com suas preferências; toda crença tem de receber igual

respeito; e ninguém deve alegar superioridade para qualquer

ponto de vista.

Com efeito, então, a tolerância pós-moderna implica em

total rejeição de todo conceito de autoridade divina. Ela

acarreta uma negação de que Deus verdadeiramente falou,

ou no mínimo, uma negação de que suas palavras têm

qualquer autoridade real.

Como cristãos nós enfrentamos uma escolha clara: ou

acompanhar o espírito da época e reduzir a autoridade das

Escrituras, ou aceitar as Escrituras e colocar sua autoridade

e nós mesmos contra o resto do mundo. Nosso dever é claro

(Tg 4.4).

Não obstante, parece que muitos dos líderes da

comunidade evangélica, pessoas que são vistas e ouvidas,

estão temerosos de afirmar a autoridade bíblica. Raramente o

pregador evangélico fala claramente ao mundo com um

autorizado "Assim diz o Senhor." Como é que nós chegamos

ao ponto em que podemos aceitar como autoridade a opinião

de um advogado, um médico, um arquiteto, mas não

podemos tolerar a autoridade da Palavra de Deus?

Será que os evangélicos ainda acreditam sem reservas

que a verdade bíblica tem autoridade divina? Evidentemente

não. Tem se tomado moda falar sobre o choque entre verdade

e erro como um "diálogo." Toda vez que um conflito se levanta

entre o Cristianismo e outro ponto de vista, alguns líderes

evangélicos convocam um diálogo com os defensores do outro

ponto de vista. Na última década líderes evangélicos bem

conhecidos têm patrocinado diálogos formais com uma

variedade ampla de figuras religiosas não-cristãs, líderes de

seitas, defensores de vários estilos de vida e representantes

de praticamente todo ponto de vista que é hostil ao

Cristianismo bíblico.

Pouco após o evento terrorista de 11 de setembro nos

Estados Unidos da América, uma de suas mais conhecidas

igrejas evangélicas patrocinou um diálogo com um clérigo

islâmico (imam) no culto de adoração do final de semana,

ostensivamente para reunir cristãos e muçulmanos. "Eu

achei muito interessante ver o quanto nós temos em

comum," disse um membro da igreja a um repórter depois do

culto. Outro disse que o diálogo com o imam tinha "aberto

portas para comunicar e mostrou que os muçulmanos são

gente do mesmo jeito que nós." Segundo o repórter que

cobria o evento, aquelas respostas eram "o tipo de impacto

que o pastor desejava."1

Por quê tais diálogos sempre parecem minimizar as

diferenças entre o Cristianismo e a falsa religião — e nunca

traçar linhas de distinção mais claramente?

A verdade bíblica é para ser proclamada com

autoridade, não colocada na mesa para discussão apenas

como uma alternativa possível entre outros pontos de vista.

O conflito entre verdade bíblica e crenças rivais não é

assunto para ser resolvido por meio de diálogo. Essa é uma

guerra espiritual não uma festa descontraída. Ela deve ser

vista como um combate não uma conversação. Nós

recebemos ordens de destruir as fortalezas do pensamento

anti-bíblico " ... e toda altivez que se levante contra o

conhecimento de Deus ... levando cativo todo pensamento à

obediência de Cristo" (2Co 10.5).

Mas as igrejas têm se tornado tão efeminadas e fracas

nestes tempos que os mais evangélicos parecem pensar que

tal postura de militância contra o erro é inconveniente e

demasiado severa. Os cristãos têm virtualmente se rendido

na batalha pela verdade. Como resultado, a comunidade

evangélica se tornou um lugar onde as pessoas podem

advogar virtualmente qualquer coisa ou promover quase

qualquer doutrina, e a única coisa que ninguém pode dizer é

que alguém está errado.

Existe até um nome para a nova perspectiva: É chamada

"hermenêutica da humildade." Um resumo da proposta de

um seminário no assunto diz o seguinte:

O curso visa auxiliar os alunos a aprenderem a formular

uma nova teologia e métodos que são relevantes e

significativos no mundo pluralista, multicultural, pósmoderno,

no qual somos chamados a ministrar. É

basicamente uma tentativa de articular uma hermenêutica...

Baseada no diálogo, um esforço sincero de extrapolar os

limites dos pontos de vista individual, isto é, uma

hermenêutica da humildade.2

Um outro que defende o mesmo objetivo diz, Os cristãos

devem destilar as preciosas percepções do pós-modernismo

com sua cultura multicultural e desconstruída.

Nós precisamos extrair desta crítica radical o que é

apropriado para uma visão cultural cristã renovada —

desenvolvendo uma hermenêutica da humildade. Nós

precisamos dar um exemplo de uma postura cultural nãotriunfalista,

que ouve e confessa.

Mas a Bíblia nada sabe da tal "hermenêutica" baseada

no diálogo com outros pontos de vista. Nossa pregação das

Escrituras deve ter autoridade. Em Tito 2.1, o apóstolo Paulo

disse a um jovem pregador, "Tu, porém, fala o que convém à

sã doutrina" (Tt 2.1). No final deste mesmo capítulo ele

acrescentou, "Dize estas coisas; exorta e repreende também

com toda a autoridade. Ninguém te despreze" (Tt 2.15). A

palavra traduzida como "desprezar" é o termo grego

kataphroneo, que literalmente significa "pensar ao redor."

Paulo está dizendo a Tito, "Não deixa ninguém te iludir; não

deixa ninguém frustrar a verdade. Prega a sã doutrina;

ensina e exorta as pessoas com autoridade que é inerente na

Palavra de Deus, e confronta ou repreende as pessoas que se

opõe à verdade."

Nas palavras de 1 Timóteo 4.11: "Ordena e ensina estas

coisas" (ênfase acrescentada).

Isso não significa que devamos ser abusivos ou

grosseiros, naturalmente. É possível ser ao mesmo tempo

ousado e caridoso e esse é o equilíbrio que nós precisamos

buscar. Paulo diz em Efésios 4.15 que devemos falar "a

verdade em amor", mas proclamá-la com a devida

autoridade.

Não existe nenhum outro meio genuíno de manusear a

verdade bíblica. Ela é afinal a verdade bíblica revelada pelo

próprio Deus e deve ser proclamada como tal.

 (Princípios para uma cosmovisão bíblica – John MacArthur. Pg.35)

Incompatibilidade

À lei e ao testemunho! Se eles não falarem

desta maneira, jamais verão a alva. (Is 8.20)

As Escrituras dizem que "mentira alguma jamais

procede da verdade" (1Jo 2.21). Como cristãos nós sabemos

que seja o que for que contradiga a verdade bíblica é, por

definição, falso. Em outras palavras, a verdade é

incompatível com o erro. Incompatibilidade é, portanto, uma

quinta palavra essencial para descrever uma cosmovisão

bíblica.

Claramente e sem rodeios, Jesus afirmou a total

exclusividade do Cristianismo. Ele disse, "Eu sou o caminho,

e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim" (Jo

14.6). ". não há salvação em nenhum outro; porque abaixo do

céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens,

pelo qual importa que sejamos salvos" (At 4.12).

Obviamente este tipo de exclusividade é

fundamentalmente incompatível com a tolerância pósmoderna.

Como cristãos nós devemos entender que seja o que for

que se oponha à Palavra de Deus ou de alguma maneira se

afaste dela é um perigo à causa da verdade. Passividade em

relação ao erro conhecido não é uma opção para o cristão. A

intolerância para com o erro encontra-se permeada nas

próprias Escrituras. E tolerância para com o erro conhecido é

tudo menos uma virtude.

Verdade e erro não podem ser combinadas para produzir

algo bom. Elas são incompatíveis da mesma forma que a luz

e as trevas. "Não vos ponhais em jugo desigual com os

incrédulos; porquanto, que sociedade pode haver entre a

justiça e a iniqüidade? Ou que comunhão, da luz com as

trevas? Que harmonia, entre Cristo e o Maligno? Ou que

união, do crente com o incrédulo? Que ligação há entre o

santuário de Deus e os ídolos?" (2Co 6.14-16).

Nós não podemos dizer ao mundo, "Isto é verdade, mas,

seja lá o que for que você quiser acreditar, também está

bem." Não está bem. As Escrituras nos ordenam a ser

intolerantes para com qualquer idéia que negue a verdade.

Para que ninguém entenda mal, eu não estou

defendendo dogmatismo em nenhum tema teológico.

Algumas coisas nas Escrituras não são perfeitamente claras.

Nas palavras da Confissão de Fé de Westminster, "Todas as

coisas, por si mesmas, não são igualmente claras nas

Escrituras, nem igualmente evidentes a todos" (1.7).

Algumas vezes nós não podemos reconstruir o contexto

histórico para entender uma dada passagem. Um exemplo

notável é a menção dos que "se batizam por causa dos

mortos" em 1Coríntios 15.29. Existem pelo menos quarenta

idéias diferentes sobre o que este versículo significa. Nós não

podemos ser dogmáticos sobre tais coisas, mas essas são

raridades nas Escrituras.

O ensinamento central das Escrituras é simples e tão

claro que até mesmo uma criança pode entendê-la O

caminho da salvação em particular é tão claro que "quem

quer que por ele caminhe não errará, nem mesmo o louco" (Is

35.8). E nas palavras da Confissão de Fé de Westminster

novamente, "não obstante, aquelas coisas que precisam ser

conhecidas, cridas e observadas para a salvação são tão

claramente expostas e visíveis, em um ou outro lugar da

Escritura, que não só os doutos, mas ainda os indoutos, no

devido uso dos meios ordinários, podem alcançar um

suficiente entendimento delas" (1.7).

Toda a verdade que é necessária para a salvação é

facilmente entendida de um modo verdadeiro por qualquer

pessoa que aplica o bom senso e devida diligência em buscar

entender o que a Bíblia ensina. E essa verdade — o cerne da

mensagem das Escrituras — é incompatível com qualquer

outro sistema de crença. Sobre isso nós temos de ser

dogmáticos.

Não é de se admirar que o pós-modernismo, que se

orgulha de ser tolerante com todo ponto de vista oposto, seja

contudo hostil ao Cristianismo bíblico. Até o mais

determinado pós-modernista reconhece que o Cristianismo

bíblico é por sua natureza totalmente incompatível com uma

posição de abertura mental indiscriminada. Se aceitarmos o

fato de que a Escritura é a verdade objetiva com a autoridade

de Deus, nós seremos obrigados a ver que todo outro ponto

de vista não é igualmente ou potencialmente válido.

Não há necessidade de buscar um terreno comum

através de diálogo com proponentes de pontos de vista

anticristãos, como se a verdade pudesse ser refinada pelo

método dialético. É loucura pensar que a verdade dada por

revelação divina precisa de qualquer refino ou atualização.

Nem tampouco devemos imaginar que nós podemos

encontrar os pontos de vista opositores em algum terreno

neutro filosófico. O terreno entre nós não é neutro. Se nós

realmente acreditamos que a Palavra de Deus é verdadeira,

nós sabemos que toda oposição é um erro. E somos

instruídos a não ceder qualquer espaço ao erro.

Em 2João 1.9-11 o apóstolo João escreveu, "Todo aquele

que ultrapassa a doutrina de Cristo e nela não permanece

não tem Deus; o que permanece na doutrina, esse tem tanto

o Pai como o Filho”. Se alguém vem ter convosco e não traz

esta doutrina, não o recebais em casa, nem lhe deis as boasvindas.

“Porquanto aquele que lhe dá boas-vindas faz-se

cúmplice das suas obras más." Isso é que é

incompatibilidade' Nosso amor pela verdade demanda uma

intolerância do erro. Para ser claro, o apóstolo não estava

advogando rudeza nem falta de hospitalidade para com os

descrentes em geral (Novamente, a Escritura claramente nos

ordena a mostrar amor e bondade mesmo para com nossos

inimigos), mas João estava tratando com o problema dos

falsos mestres itinerantes na igreja primitiva. Tipicamente,

aqueles qualificados para ensinar a doutrina naquele tempo

viajavam de cidade em cidade e buscavam abrigo nos lares

dos crentes. João estava dizendo que quando um conhecido

fornecedor de falsas doutrinas viesse buscando acomodação,

não era para ele ser recebido na comunhão; não era para ele

receber hospitalidade grátis; não era para ele receber

encorajamento de nenhuma espécie — especialmente uma

acolhida que significasse apoio ao seu trabalho de ensinar

falsas doutrinas. A antítese entre verdade e erro era tão

importante que os crentes tinham o dever sagrado de deixar

clara a desaprovação deles a qualquer um que

deliberadamente corrompesse a verdade com mentiras.

De modo semelhante o apóstolo Paulo escreveu, " ...

ainda que nós ou mesmo um anjo vindo do céu vos pregue

evangelho que vá além do que vos temos pregado, seja

anátema [maldito]. “Assim, como já dissemos, e agora repito,

se alguém vos prega evangelho que vá além daquele que

recebestes, seja anátema" (Gl1. 8,9). A fala é pesada, mas o

ponto é clara: quando alguém torcer a verdade fundamental

do evangelho, mesmo que ele seja um anjo ou um apóstolo,

que seja amaldiçoado.

Advertências contra falsos mestres enchem o Novo

Testamento. É um tema importante nas epístolas pastorais,

2Pedro, Judas e 2João. Tudo o que for anti-bíblico —

incluindo toda falsidade, qualquer má interpretação das

Escrituras e toda heresia — não é para ser tolerado por

aqueles que amam a verdade. É um perigo para a verdade e

uma desonra à verdade de Deus. Uma cosmovisão bíblica é

incompatível com qualquer tipo de tolerância de mentiras.

(Princípios para uma cosmovisão bíblica – John MacArthur. Pg.40)

Integridade

A integridade dos retos os guia; mas, aos

pérfidos, a sua mesma falsidade os destrói.

(Pv 11.3)

Completando nossa lista de princípios simples para uma

cosmovisão bíblica temos a palavra integridade. Esta flui

naturalmente de todos os princípios precedentes. Visto que o

Cristianismo coloca tal alta ênfase na verdade, nós devemos

reconhecer que integridade é uma virtude essencial e a

hipocrisia um vício terrível.

Integridade é a qualificação bíblica essencial para todo o

ministério. Em toda lista de qualificação para líderes da

igreja no Novo Testamento, um pré-requisito encabeça a lista:

O homem que deve ocupar um cargo na igreja deve ser

"irrepreensível" (1Tm 3.2,10; Tt 1.6,7).

Sucesso nos negócios seculares, habilidade em relações

públicas ou outros talentos mundanos não são o que

qualifica um homem para liderança na igreja. A suprema e

primária qualificação em todos os níveis da liderança da

Igreja é integridade — amor pela verdade e consistência em

vivê-la na prática. Ignorar este princípio é sacrificar o valor

que nós atribuímos à verdade como cristãos.

Em outras palavras, se nós realmente acreditamos que a

verdade das Escrituras objetiva e entendida racionalmente é

tanto autoridade quanto incompatível com o erro, visto que a

Bíblia é a Palavra singular do Deus vivo — devemos não

apenas pregá-la, mas devemos vivê-la também. Não basta

falar da boca para fora. Se verdadeiramente cremos que a

Bíblia é a verdade divina, devemos deixar que ela permeie

nossa vida e ministério. Viver de outra maneira é equivalente

a negar a verdade. As pessoas que pensam de modo

diferente, "No tocante a Deus, professam conhecê-lo;

entretanto, o negam por suas obras; é por isso que são

abomináveis desobedientes e reprovados para toda boa obra"

(Tt 1.16).

Esdras, o sumo sacerdote nos tempos de Neemias, é o

protótipo do que todo ministro piedoso deve ser. "Esdras

tinha disposto o coração para buscar a lei do SENHOR, e

para a cumprir, e para ensinar em Israel os seus estatutos e

os seus juízo s" (Ed 7.10, ênfase acrescentada).

Eu aprendi essa lição com meu pai, que foi pastor toda

sua vida e um modelo de integridade, como também o foi

meu avô antes dele. Eu comecei a entender quão difícil pode

ser a luta logo quando comecei meu ministério aos vinte e

poucos anos. Eu estava pastoreando havia apenas um mês

quando fui solicitado a realizar o casamento de uma moça de

nossa igreja que estava planejando se casar com um nãocrente.

Numa reunião do conselho da igreja alguns dos

líderes insistiram comigo para realizar o casamento, visto que

o pai da noiva era um homem influente. Havia muito em jogo.

Poderíamos perder essa família na igreja se eu me recusasse.

Eu disse, "mas eu não posso fazer isso. Eu não posso

fazer o que as Escrituras claramente proíbem. Os crentes não

devem se colocar em jugo desigual com os incrédulos,

segundo Coríntios 6.14."

Eles estavam esperando isso. Então responderam, "Bem,

está certo. Nós entendemos seus sentimentos. Nós

conhecemos um pastor de outra igreja que aceita realizar a

cerimônia na nossa igreja."

Então eu lhes perguntei, "mas de quem é esta igreja? É

de vocês para fazerem como bem entenderem ou é de Cristo?"

Eles responderam, felizmente como deviam, "Você está

certo; nós não podemos fazer isso. Esta igreja é de Cristo."

Essa experiência foi o Rubicão1 para a Grace

Community Church. Esse foi o momento em que o futuro da

nossa congregação foi decidido. De fato uma família inteira

saiu da igreja e muitos outros membros saíram também por

causa desse incidente, mas naquele dia nós decidimos como

presbíteros, que não iríamos apenas pregar a Palavra de

Deus; nós esperávamos que ela fosse vivida na vida

comunitária da igreja.

Tal tipo de obediência à Palavra de Deus tem modelado e

moldado nosso ministério com o passar dos anos. Ela é

aparente mesmo na maneira como nós cultuamos. Nós não

entretemos as pessoas. Nós não apresentamos um espetáculo

de circo. Nós nos reunimos para adorar a Deus, para exaltar

a Cristo e para ouvir a pregação da Palavra de Deus. Nós

praticamos a disciplina de igreja conforme Mateus 18.15-20.

Nós buscamos obedecer o que as Escrituras pregam, sem

importar com o quão politicamente incorreto ou fora de moda

possa parecer. E num tempo em que muitas igrejas estão se

tornando mais e mais como o mundo, nosso objetivo é nos

conformarmos mais e mais com os padrões estabelecidos nas

Escrituras. Deus tem abençoado isso e eu estou convencido

que é porque os presbíteros têm buscado elevar o padrão de

integridade bíblica em todos os níveis da liderança.

Infelizmente, o movimento evangélico hoje está se

desviando desses princípios fundamentais e tem começado a

abraçar as idéias pós-modernas indiscriminadamente. Os

evangélicos estão perdendo a sua base; a confiança das pessoas

nas Escrituras está erodindo; e a igreja está perdendo

seu testemunho. Cada vez menos cristãos estão dispostos a

se posicionar contra a tendência desta geração e os efeitos

tem sido desastrosos. Subjetivismo, irracionalidade,

mundanismo, incerteza, transigência e hipocrisia já têm se

tomado o lugar comum entre as igrejas e organizações que no

passado constituíam a corrente evangélica.

A única cura, eu estou convencido, é a rejeição

consciente total dos valores pós-modernos e um retorno para

estes seis princípios distintivos do Cristianismo bíblico. Nós

devemos ser fiéis em guardar o tesouro da verdade que nos

foi confiado (2Tm 1.14). Se não o fizermos, quem o fará?

(Princípios para uma cosmovisão bíblica – John MacArthur. Pg.44)

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Operações Gerais e Especiais do Espírito Santo

A Escritura mostra claramente que nem todas as operações do Espírito santo são parte integrante da obra salvadora de Jesus Cristo. Exatamente como o Filho de Deus não é somente o Mediador da redenção, mas também é o Mediador da criação, assim o Espírito Santo, como nos é apresentado na Escritura, opera não somente na obra da redenção, mas também na obra da criação. Naturalmente, a soteriologia está interessada unicamente na Sua obra redentora, mas, para compreende-la bem, é altamente desejável dar alguma atenção às Suas operações mais gerais.

1. OPERAÇÕES GERAIS DO ESPÍRITO SANTO. É bem sabido o fato de que as distinções trinitárias não estão reveladas tão claramente no Velho Testamento, nem sempre denota uma pessoa, e mesmo nos casos em que a idéia da pessoa está claramente presente, nem sempre indica a terceira pessoa da Trindade Santa. Às vezes é empregada figuradamente para denotar o sopro de Deus, Jó 32.8; Sl 33.6, e, nalguns casos, é simplesmente um sinônimo de “Deus”, Sl 139.7, 8; Is 40.13. É muito comum servir a ela para designar a força da vida, o princípio que faz viver as criaturas, e isso de maneira única, peculiar a Deus. O espírito que permanece nas criaturas e do qual a sua própria existência depende, provém de Deus e as liga a Deus, Jó 32.8; 33.4; 34.14, 15; Sl 104.29; Is 42.5. Deus é chamado “Deus (ou “Pai”) dos espíritos de toda carne”, Nm 16.22; 27.16; Hb 12.9. Nalguns casos destes é evidente que o Espírito de Deus não é um simples poder, mas uma pessoa. Já a primeira passagem em que o Espírito é mencionado, Gn 1.2, chama a atenção para esta função de comunicar vida, e este fato é particularizado com relação à criação do homem, Gn 2.7. O Espírito de Deus gera vida e leva a completar-se a obra criadora de Deus, Jó 33.4; 34.14, 45; Sl 104.29, 30; Is 42.5. No Velho Testamento é evidente que a origem da vida, sua manutenção e seu desenvolvimento dependem da operação do Espírito Santo. A retirada do Espírito significa morte.

Extraordinárias demonstrações de poder, proezas de força e audácia, também são reportadas ao Espírito de Deus. Os juízes que Deus levantava para a libertação de Israel eram evidentemente, homens de considerável capacidade e de coragem e força extraordinárias, mas o verdadeiro segredo das sua realizações estava, não neles, mas no poder sobrenatural que lhes sobrevinha. A Escritura diz repetidamente que “o Espírito do Senhor veio (poderosamente) sobre” eles, Jz 3.10; 6.34; 11.20; 13.25; 14.6, 19; 15.14. Foi o Espírito de Deus que os capacitou a acionar a libertação do povo. Há também claro reconhecimento da operação do Espírito Santo na esfera intelectual. Eliú fala disto quando diz: “Na verdade, há um espírito no homem, e o sopro do Todo-poderoso o faz entendido”, Jó 32.8. O discernimento intelectual, ou a capacidade de compreender os problemas da vida, atribui-se a uma influência iluminadora do Espírito Santo. O aprimoramento da habilidade artística também é atribuída ao Espírito do Senhor, Êx 28.3; 31.3; 35.30 e segtes. Certos homens, caracterizados pelos revestimentos de dotes especiais, foram qualificados para a obra mais fina que devia ser realizada quanto à construção do tabernáculo e aos adornos das vestes sacerdotais; cf. também Ne 9.20. O Espírito do Senhor é igualmente descrito como qualificando homens para diversos ofícios. O Espírito foi posto, e repousou, sobre os setenta que foram nomeados para assistir Moisés no trabalho de governar e julgar o povo de Israel, Nm 11.17, 25, 26. Estes também receberam temporariamente o Espírito de profecia, como atestado da sua vocação. Josué foi escolhido como sucessor de Moisés porque tinha o Espírito do Senhor, Nm 27.18. Quando Saul e Davi foram ungidos reis, o Espírito do Senhor veio sobre eles para qualifica-los para a sua importante missão, 1 Sm 10.6, 10; 16.13, 14. Finalmente, vê-se claramente que o Espírito de Deus também operou nos profetas como Espírito de revelação. Diz Davi: “O Espírito do Senhor fala por meu intermédio, e a sua palavra está na minha língua”, 2 Sm 23.2. Em Ne 9.30, Neemias testifica: “No entanto os aturaste por muitos anos, e testemunhaste contra eles pelo teu Espírito, por intermédio dos teus profetas; porém eles não deram ouvidos”. Ezequiel fala de uma visão concedida pelo Espírito de Jeová, 11.24, e em Zc 7.12 lemos: “Sim, fizeram os seus corações duros como diamante, para que não ouvissem a lei nem as palavras que o Senhor dos Exércitos enviara pelo seu Espírito mediante os profetas que nos precederam”. Cf. também 1 Rs 22.24; 1 Pe 1.11; 2 Pe 1.21.

(Tologia Sistemática – Louis Berkhof.  421)

RELAÇÃO ENTRE AS OPERAÇÕES GERAIS E AS OPERAÇÕES ESPECIAIS DO ESPÍRITO SANTO

 Há certa semelhança entre as operações gerais e as operações especiais do Espírito Santo. Com as Suas operações gerais, Ele origina, mantém, fortalece e dirige toda sorte de vida – orgânica, moral e intelectual. Ele o faz de diferentes maneiras e em harmonia com os objetos envolvidos. Algo similar se pode dizer da Sua operação especial. Também na esfera redentora Ele origina a nova vida, capacita-a a frutificar, dirige-a em seu desenvolvimento e a leva ao seu destino. Mas, a respeito da sua similaridade, há, não obstante, uma diferença essencial entre as operações do Espírito Santo na esfera da criação e Suas operações na esfera da redenção ou re-criação. Naquelas, Ele origina, mantém, desenvolve e guia a vida da criação natural, restringe no presente a influência deteriorante e devastadora do pecado nas vidas dos homens e da sociedade, e capacita os homens a manterem certa ordem e decoro em sua vida comunitária, a fazer o que é exteriormente bom e reto em suas relações uns com os outros e a desenvolver os talentos de que foram dotados na criação. Nestas, por outro lado, Ele origina, mantém, desenvolve e guia nova vida, que nasce do Alto, é nutrida do Alto e será aperfeiçoada no Alto – vida celestial, em princípio, embora vivida na terra. Com a sua operação especial, o Espírito Santo sobrepuja e destrói o poder do pecado, renova o homem à imagem de Deus e o capacita a prestar obediência espiritual a Deus, a ser sal da terra, a luz do mundo e um fermento espiritual em todas as esferas da vida. Se bem que a obra que o Espírito Santo realiza na esfera da criação tem, sem dúvida, certa significação independente, todavia, está subordinada à obra de redenção. A vida completa dos eleitos, incluindo a que precede ao seu novo nascimento, é determinada e governada por Deus, com vistas ao seu destino final. Sua vida natural é ordenada de modo tal que, quando renovada, corresponde ao propósito de Deus.

(Teologia Sistemática – Louis Berkhof. Pg. 421)

O Espírito Santo Como o Despenseiro da Graça Divina

Assim como a aliança na qual Deus fez provisão para a salvação dos pecadores é chamada aliança da graça, e como se descreve o Mediador da Aliança como “cheio de graça” de modos que da Sua plenitude podemos receber “graça sobre graça”, Jo 1.16, 17, assim também o Espírito Santo é chamado “Espírito da graça”, visto que Ele toma a “graça de Cristo” e nô-la confere,

1. O USO BÍBLICO DO TERMO “GRAÇA”. Nem sempre a palavra “graça” é empregada no mesmo sentido na Escritura, mas apresenta certa variedade de significados. Temos no Velho Testamento a palavra chen (adj. Chanun) da raiz chanan. O substantivo pode significar graciosidade (graça, neste sentido) ou beleza, Pv 22.11; 31.30, porém mais geralmente significa favor ou boa vontade. Achar favor aos olhos de Deus ou do homem é expressão que se encontra repetidamente no Velho Testamento. O favor assim obtido leva consigo a concessão de favores ou bênçãos. Quer dizer que a graça não é uma qualidade abstrata, mas é um princípio ativo e dinâmico, que se manifesta em atos benevolentes, Gn 6.8; 19.19; 33.15; Ex 33.12; 34.9; 1 Sm 1.18; 27.5; Et 2.7. A idéia fundamental é a de que as bênçãos graciosamente concedidas são dadas livremente (gratuitamente), e não em consideração a qualquer reivindicação ou mérito. A palavra neotestamentária charis, de chairein, “regozijar-se”, denota primeiramente uma aparência externa agradável – “encanto”, “agrado”, “aceitabilidade”, e é este o seu sentido em Lc 4.22; Cl 4.6. Contudo, um sentido mais proeminente é favor ou boa vontade, simpatia, Lc 1.30; 2.40, 52; At 2.47; 7.46; 24.27; 25.9. Pode significar a bondade ou benevolência de nosso Senhor, 2 Co 8.9, ou o favor demonstrado ou concedido por Deus, 2 Co 9.8 (que se refere a bênçãos materiais); 1 Pe 5.10. Acresce que a palavra expressa a emoção despertada no coração do favorecido e, assim, adquire o sentido de gratidão, Lc 4.22; 1 Co 10.30; 15.57; 2 Co 2.14; 8.16; 1 Tim 1.12. Contudo na maioria das passagens em que a palavra charis é utilizada no Novo Testamento, ela significa a imerecida operação de Deus no coração do homem, operação efetuada mediante o Espírito Santo. Embora às vezes falemos da graça como uma qualidade inerente, é, na realidade a comunicação ativa das bênçãos divinas pela ação interior do Espírito Santo, provenientes daquele que é “cheio de graça e de verdade”, Rm 3.24; 5.2, 15, 17, 20; 6.1; 1 Co 1.4; 2 Co 6.1; 8.9; Ef 1.7; 2.5, 8; 3.7; 1 Pe 3.7; 5.12.

(Teologia Sistemática – Louis Berkhof. Pg. 422)

A GRAÇA DE DEUS NA OBRA DE REDENÇÃO

A discussão da graça de Deus no contexto da obra de redenção requer igualmente diversas distinções, que devemos ter em mente.

a. Em primeiro lugar, a graça é um atributo de Deus, uma das perfeições divinas. É o livre, soberano e imerecido favor ou amor de Deus ao homem, no estado de pecado e culpa em que este se encontra, favor que se manifesta no perdão do pecado e no livramento da sua pena. A graça está relacionada com a misericórdia de Deus, em distinção da Sua justiça. Esta é a graça redentora no sentido mais fundamental da expressão. É a causa última do propósito eletivo de Deus, da justificação do pecador e da sua renovação espiritual; e é a prolífica fonte de todas as bênçãos espirituais e eternas.

b. Em segundo lugar, o termo “graça” é empregado como um designativo da provisão objetiva que Deus fez em Cristo para a salvação do homem. Cristo, como o Mediador, é a encarnação viva da graça de Deus. “E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade”, Jô 1.14. Paulo tem em mente a manifestação de Cristo, quando diz: “Porquanto a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens”, Tt 2.11. Mas o termo não é aplicado somente ao que Cristo é, mas também ao que Ele mereceu para os pecadores. Quando Paulo fala repetidamente, nas saudações finais das suas epístolas, da “graça de nosso Senhor Jesus Cristo”, ele tem em mente a graça da qual Cristo é a causa meritória. Diz João: “a lei foi dada por intermédio de Moisés; a graça e a verdade vieram por meio de Jesus Cristo”, Jo 1.17. Cf. também Ef 2.7.

c. Em terceiro lugar, a palavra “graça” é empregada para designar o favor de Deus como é demonstrado na aplicação da obra de redenção pelo Espírito Santo. É aplicado ao perdão que recebemos na justificação, um perdão dado gratuitamente por Deus, Rm 3.24; 5.2, 21; Tt 3.15. Mas, em acréscimo a isso, também é um nome compreensivo, abrangendo todos os dons da graça de Deus, as bênçãos da salvação e as graças espirituais que são acionadas nos corações e vidas dos crentes pela operação do Espírito Santo, At 11.23; 18.27; Rm 5.17; 1 Co 15.10; 2 Co 9.14; Ef 4.7; Tg 4.5, 6; 1 Pe 3.7. Além disso, há claras indicações de que não se trata apenas de uma qualidade passiva, mas também de uma força ativa, uma energia, uma coisa que trabalha, 1 Co 15.10; 2 Co 12,9; 2 Tm 2.1. Neste sentido da palavra, ela é como um sinônimo do Espírito Santo, de maneira que há pouca diferença entre as expressões “cheio do Espírito Santo” e “cheio de graça e poder”, At 6.5 e 8. O Espírito Santo é chamado “Espírito da graça”, Hb 10.29. É especialmente com relação aos ensinamentos da Escritura a respeito da aplicação da graça de Deus ao pecador pelo Espírito Santo, que a doutrina da graça se desenvolveu na igreja.

(Teologia Sistemática – Louis Berkhof. Pg. 423)

A DOUTRINA DA GRAÇA NA HISTÓRIA DA IGREJA

Os ensinos da Escritura acerca da graça de Deus ressaltam o fato de que Deus distribui Suas bênçãos aos homens de maneira livre e soberana, e não em consideração a algum mérito dos homens; que os homens devem todas as bênçãos da vida a um Deus, perdoador e longânimo; e especialmente que todas as bênçãos da obra de salvação são dadas gratuitamente por Deus, e de maneira nenhuma são determinadas pelos supostos méritos dos homens. Paulo o expressa claramente com as seguintes palavras: “Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus, não de obras, para que ninguém se glorie”, Ef 2.8, 9. Ele dá forte ênfase ao fato de que a salvação não é pelas obras, Rm 3.20-28; 4.16; Gl 2.16.

Esta doutrina não ficou livre de contestação. Nalgumas dos chamados pais da igreja primitiva, particularmente da igreja oriental, já encontramos um estilo moralista que não se harmoniza com a ênfase paulina. A tendência que se tornou patente naquela parte da igreja, finalmente culminou no pelagianismo. A concepção pelagiana da graça era bastante incomum. Segundo Wiggers, para Pelágio a graça abrange: (a) “O poder de fazer o bem (possibilitas boni) e, daí, especialmente o livre arbítrio propriamente dito.” (b) “A revelação, a lei e o exemplo de Cristo, que tornam a prática da virtude mais fácil para o homem.” (c) “A nossa capacitação, pela nossa própria vontade, de abster-nos de pecar, e dar-nos Deus o auxílio da Sua lei e dos Seus mandamentos, e Seu perdão prévio dos pecados daqueles que voltam para Ele.” (d) “Influências sobrenaturais sobre o cristão, pelas quais o entendimento recebe a iluminação e a prática da virtude se lhe torna mais fácil.”[1] Ele não reconhecia nenhuma operação direta do Espírito de Deus na vontade do homem, mas somente uma operação indireta na vontade, mediante a consciência iluminada. Em seu conceito, a operação da graça de Deus era primordialmente, embora não exclusivamente, externa e natural. Em oposição ao conceito pelagiano, o de Agostinho é freqüentemente denominado “teologia da graça”. Conquanto Agostinho admitisse que a palavra “graça” podia ser utilizada num sentido mais amplo (graça natural), e que mesmo no estado de integridade era a graça de Deus que possibilitava a Adão reter a sua retidão, a sua maior ênfase é sempre sobre a graça como dom de Deus ao homem decaído, graça que se manifesta no perdão do pecado e na renovação e santificação da natureza humana. Em vista da depravação total do homem, ele considera esta graça como absolutamente necessária para a salvação. Ela é acionada no homem pela operação do Espírito Santo, que habita e age nos eleitos e constitui o princípio de todas as bênçãos da salvação. Ele distinguia entre a graça operante ou proveniente, e a graça cooperante e subseqüente. A primeira habilita a vontade a escolher o bem, e a segunda coopera com a vontade já habilitada, para a prática do bem. Em sua luta com o semipelagianismo, Agostinho salientava o caráter inteiramente gratuito e irresistível da graça de Deus.

Nos conflitos subseqüentes, a doutrina agostiniana da graça foi vitoriosa apenas em parte. Seeberg expressa-se como segue: “Assim, a doutrina da ‘graça somente’ saiu vitoriosa; mas a doutrina agostiniana da predestinação foi abandonada. A graça irresistível da predestinação foi expulsa de campo pela graça sacramental do batismo”.[2] Durante a Idade Média, os escolásticos deram considerável atenção ao tema da graça, mas nem sempre concordavam quanto aos pormenores da doutrina. Uns se aproximaram da concepção agostiniana da graça, outros da concepção semipelagiana. Em geral se pode dizer que eles entendiam que a graça é mediada pelos sacramentos, e procuravam combinar com a doutrina da graça uma doutrina do mérito que comprometia seriamente aquela. A ênfase não era à graça como o favor de Deus demonstrado aos pecadores, mas à graça como uma qualidade da alma, que tanto podia ser considerada como incriada (i.e., como o Espírito Santo), como em-criada, ou produzida nos corações dos homens pelo Espírito Santo. A graça infusa é básica para o desenvolvimento das virtudes cristãs, e capacita o homem a adquirir méritos para com Deus, a merecer maior graça, embora não possa merecer a graça da perseverança. Esta só se pode obter como um livre dom de Deus. Diferentemente de Agostinho, os escolásticos não mantinham a conexão lógica entre a doutrina da graça e a doutrina da predestinação.

Os Reformadores retornaram à concepção agostiniana da graça, mas evitaram o seu sacramentalismo. Eles passaram a dar de novo ênfase à graça como favor imerecido de Deus para com os pecadores, e a descreviam de modo a excluir todo mérito da parte do pecador. Diz Smeaton: “O termo graça, que, na concepção agostiniana, sugeria o exercício interno do amor, despertado pelas operações do Espírito Santo (Rm 5.5), e que na teologia escolástica viera a indicar uma qualidade da alma, ou os dotes interiores e os hábitos infusos da fé, do amor e da esperança, agora veio a ser tomado no sentido mais escriturístico e mais amplo, como o livre, o eficaz favor que se acha na mente divina”.[3] Conquanto os Reformadores empregassem o termo graça em conexão com a justificação, noutros contextos usavam com freqüência a frase “a obra do Espírito Santo” em lugar do termo graça. Embora todos eles dessem ênfase à graça no sentido da operação interior e salvífica do Espírito Santo, particularmente Calvino desenvolveu a idéia da graça comum, isto é, uma graça que, embora sendo expressão do favor de Deus, não tem efeito salvífico. De acordo com o esplêndido estudo histórico-dogmático do dr. H. Kuyper sobre Calvino sobre a Graça Comum,[4] ele ainda distinguia três classes de graça comum, quais sejam, a graça comum universal, a graça comum geral e a graça comum pactual. Os arminianos afastaram-se da doutrina da Reforma sobre este ponto. Segundo eles, Deus dá a graça suficiente (comum) a todos os homens e, com isso, capacita-os a arrepender-se e crer. Se a vontade humana cooperar com o Espírito Santo e o homem realmente se arrepender e crer, Deus, em acréscimo, conferirá ao homem a graça da obediência evangélica e a graça da perseverança. Assim, este conceito torna a obra da graça dependente do consentimento da vontade do homem. O que se chama graça irresistível não existe. Diz Smeaton na obra já citada: “Afirmava-se que todo ser humano pode obedecer ou resistir; que a causa da conversão não é o Espírito Santo juntamente com a vontade humana concorrente ou cooperante; e que esta é a causa imediata da conversão”.[5] Amyraldus, da Escola de Saumur, na verdade não melhorou a posição arminiana com a sua suposição, com relação ao decreto geral de Deus, de que o pecador, embora sem qualquer capacidade moral, tem, todavia, a capacidade natural para crer – uma desafortunada distinção, que também foi introduzida na Nova Inglaterra por Edwards, Bellamy e Fuller. Pajon, discípulo de Amyraldus, negava a necessidade da obra do Espírito Santo na iluminação interna dos pecadores para a sua conversão salvadora. A única coisa que ele considerava necessária era que o entendimento, que tem em si mesmo idéias claras suficientes, deve ser atingido pela luz da revelação externa. O bispo Warburton, em sua obra sobre A Doutrina da Graça, ou Ofício e Operações do Espírito Santo (The Doctrine of Grace, or the Office and Operations of the Holy Spirit), não toma conhecimento de qualquer graça salvadora, na acepção geralmente reconhecida da expressão, mas limita a palavra “graça” às operações extraordinárias do Espírito na era apostólica. E Junckheim, em sua importante obra,negava o caráter sobrenatural da obra de Deus na conversão do pecador, e afirmava que o poder moral da palavra efetua tudo. O “Avivamento Metodista” na Inglaterra e o “Grande Despertamento” ocorrido nos Estados Unidos trouxeram consigo a restauração da doutrina da graça salvadora, embora nalguns casos mais ou menos matizada de arminianismo. Para Schleiermacher, o problema da culpa do pecado era praticamente inexistente, desde que ele negava a existência da culpa. E, conseqüentemente, ele pouco ou nada sabe da graça salvadora de Deus. Diz Mackintosh: “Esta verdade bíblica central (da misericórdia divina para com os pecadores), Schleiemacher quase sempre deixa passar em silêncio, ou menciona apenas perfuntoriamente, o que mostra quão pouco ele a compreende”.[6] A doutrina da graça divina também fica necessariamente obscurecida na teologia de Albrecht Ritschl. E se pode dizer que é característico de toda a teologia “liberal” moderna, com sua ênfase na bondade do homem, seu extremo distanciamento da necessidade da graça salvadora de Deus. A palavra “graça” aos poucos foi desaparecendo da palavra escrita e falada de muitos teólogos, e muita gente do povo dos nossos dias não liga nenhum outro sentido ao termo, além do de graciosidade. Mesmo Otto chama a atenção para isto, em sua obra sobre A idéia do Santo (The Idea of the Holy), dizendo que o povo não percebe o sentido mais profundo da palavra.[7] A teologia da crise merece crédito por ter salientado de novo a necessidade da graça divina, com o resultado que a palavra uma vez mais está entrando em uso.

QUESTIONÁRIO PARA PESQUISA: 1. Sobre quais elementos da ordo salutis recai a ênfase nos três primeiros séculos? 2. em que estes séculos revelam um desvio rumo ao moralismo e ao cerimonialismo? 3. Como se entendia a doutrina da justificação? 4. Como a concebia Agostinho? 5. Qual era o seu conceito de fé? 6. Quantas e quais classes de graça ele distinguia? 7. Em seu sistema, a graça excluía todo mérito? 8. Ele concebia a graça salvadora como passível de perda? 9. Que fatores favoreceram o desenvolvimento da doutrina das boas obras? 10. Como os escolásticos apresentavam a doutrina da justificação? 11. Como andou a ordo salutis nas mãos dos antinomianos? 12. Como os neonomianos racionalistas e pietistas a conceberam? 13. Quais outras operações, além das operações salvadoras, são atribuídas ao Espírito Santo na Escritura? 14. Quais os diferentes sentidos da palavra “graça” na Escritura? 15. Que é que ela designa, em conexão com a obra de redenção? 16. Qual a relação entre as doutrinas do livre arbítrio e da graça na história?

BIBLIOGRAFIA PARA CONSULTA: Bavinck, Geref. Dogm. III, p. 551-690; Kuyper, Dict. Dogm., De Salute, p. 15-20; McPherson, Chr. Dogm. P. 367-371; Kaftan, Dogmatik, p. 525-532, 651-661; Warfield, The Plan os Salvation; Seeberg, Heilsordnung (artigo na Realecyclopaedie de Hauck); Pieper, Christl. Dogm. II, p. 473-498; H. Schmid, Doct. Theol., p. 413-416; K. Dijk, Heilsord (artigo na Chr. Enc.); Pope, Chr. Theol. II, p. 348-367; Neil, Grace (artigo em A Protestant Dictionary); Easton, Grace (artigo na Intern. Standard Bible Enc.); Smeaton, The Doctrine of the Holy Spirit, p. 1-99, 291-414; Buchanan, The Doctrine of Justification, p. 339-364; Moffatt, Grace in the New Testament; Bryan, W. S., An Inquiry into the Need of the Grace of God.
(Teologia Sistemática – Louis Berkhof. Pg. 426)



[1] . Augustinism and Pelagianism, p, 179-183.
[2] Histoy of Doctrine I, p.382.
[3] The Doctrine of the Holy Spirit, p. 346.
[4] Calvin on Common Grace, p. 179 e segtes.
[5] P. 357.
[6] Types of Modern Theology, p. 96.
[7] P. 32 e segtes., 145.