quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Características da União Mística

Da seção anterior transparece que a expressão “união mística” pode ser, e freqüentemente é, empregada num sentido amplo, incluindo os vários aspectos (legal, objetivo, subjetivo) da união entre Cristo e os crentes. Mais geralmente, porém, ela indica unicamente o aspecto máximo dessa união, a saber, a sua realização subjetiva pela operação do Espírito Santo, e, naturalmente, é este aspecto que está no primeiro plano da soteriologia. Tudo que se diz no restante deste capítulo apóia-se nesta união subjetiva. As principais características desta união são as seguintes:

1. É UMA UNIÃO ORGÂNICA. Cristo e os crentes formam um corpo. O caráter orgânico desta união é ensinado claramente em passagens como Jo 15.5; 1 Co 6.15-19; Ef 1.22, 23; 4.15; 5.29, 30. Nesta união orgânica Cristo atende aos crentes, e os crentes atendem a Cristo. Cada parte do corpo serve a cada uma das outras partes e por estas é servido, e juntas são subservientes ao todo numa união que é indissolúvel.

2. É UMA UNIÃO VITAL. Nesta união, Cristo é o princípio vitalizador e dominante de todo o corpo de crentes. Não é outra coisa senão a vida de Cristo que habita e anima os crentes, de sorte que, para falar em consonância com Paulo, Cristo é “formado” neles, Gl 4.19. Por ela Cristo vem a ser o princípio formativo da vida deles, e a conduz numa direção que vai rumo a Deus, Rm 8.10; 2 Co 13.5; Gl 4.19,20.

3. É UMA UNIÃO MEDIADA PELO ESPÍRITO SANTO. O Espírito Santo foi, numa capacidade especial, uma parte da recompensa dada ao Mediador e, como tal, foi derramado no dia de Pentecoste para a formação do corpo espiritual de Jesus Cristo. Mediante o Espírito Santo, Cristo agora habita nos crentes, une-os a Si e os entrelaça numa unidade santa, 1 Co 6.17; 12.13; 2 Co 3.17, 18; Gl 3.2, 3.

4. É UMA UNIÃO QUE IMPLICA AÇÃO RECÍPROCA. O ato inicial é de Cristo, que une os crentes a Si regenerando-os e, deste modo, produzindo fé no interior deles. Por outro lado, o crente se une também a Cristo por um ato consciente de fé e dá continuidade a essa união, sob a influência do Espírito Santo, pelo constante exercício da fé, Jo 14.23; 15.4,5; Gl 2.20; Ef 3.17.

5. É UMA UNIÃO PESSOAL. Todo crente está unido pessoal e diretamente a Cristo. A idéia de que a vida que há na igreja mediante Cristo dimana da igreja para o crente individual é decididamente antibíblica, não somente em sua forma sacramentalista, mas também em sua forma panteísta (Roma, Schleiermacher e muitos teólogos modernos). Quando da regeneração de cada pecador, este é diretamente ligado a Cristo e recebe dele a sua vida. Conseqüentemente, a Bíblia sempre dá ênfase ao vínculo do crente com Cristo, Jo 14.20; 15.1-7; 2 Co 5.17; Gl 2.20; Ef 3.17, 18.

6. É UMA UNIÃO TRANSFORMADORA. Por esta união os crentes são transformados à imagem de Cristo, segundo a Sua natureza humana. O que Cristo efetua em Seu povo é, num sentido, uma réplica ou reprodução daquilo que se deu com Ele. Não somente objetivamente, mas também num sentido subjetivo, eles sofrem, levam a cruz, são crucificados, morrem e ressuscitam em novidade de vida, com Cristo. Em certa medida, eles participam das experiências do seu Senhor, Mt 16.24; Rm 6.5; Gl 2.20; Cl 1.24; 2.12; 3.1; 1 Pe 4.13.

(Teologia Sistemática – Louis Berkhof. Pg. 447)

Conceitos Errôneos da União Mística

Existem várias concepções errôneas da união mística, contra as quais devemos estar vigilantes. Erros sobre este ponto não devem ser considerados como inconseqüentes e, portanto, desimportantes, pois eles acarretam perigo quanto ao bom entendimento da vida cristã.

1. ERRO RACIONALISTA. Devemos evitar o erro dos racionalistas que costumam identificar a união mística com a união de Cristo como o Logos com toda a criação ou com a imanência de Deus em todos os espíritos humanos. Vê-se isto na seguinte afirmação que A.H.Strong cita de Campbell, The Indwelling Christ (O Cristo que em nós habita): “Na imanência de Cristo na natureza vemos a base da Sua imanência na natureza humana. ... Um homem pode estar fora de Cristo, mas Cristo nunca está fora dele. Ele não abandona aqueles que O banem”. Neste conceito, a união mística fica privada da sua significação soteriológica.

2. ERRO MÍSTICO. Outro erro perigoso é o dos místicos, que entendem a união mística como uma identificação do crente com Cristo. De acordo com este conceito, há nela uma união de essência, na qual a personalidade de um simplesmente se funde na do outro, de maneira que Cristo e o crente não permanecem como pessoas distintas. Mesmo alguns luteranos chegaram a esse extremo. Houve um extremista que não hesitou em dizer: “Eu sou Cristo Jesus, a Palavra de Deus viva; eu te redimi pelos meus sofrimentos sem pecado”.

3. ERRO SOCINIANO E ARMINIANO. No outro extremo acham-se os ensinos dos socinianos e arminianos, que apresentam a união mística como simples união moral, ou como uma união de amor e simpatia, como a que existe entre um professor e os seus alunos, ou entre amigo e amigo. Tal união não envolve nenhuma interpenetração da vida de Cristo e a dos crentes. Envolveria nada mais que uma amorosa adesão a Cristo, um serviço amigável prestado gratuitamente a Ele, e a pronta aceitação da mensagem do reino de Deus. É uma união que não requer um Cristo em nós.

4. ERRO SACRAMENTALISTA. Outro erro a evitar-se é o dos sacramentalistas, representados pela Igreja Católica Romana e por alguns luteranos e episcopais da alta igreja. Strong fala deste erro como sendo “talvez a mais perniciosa interpretação da natureza desta união”. Ela faz da graça de Deus uma coisa substancial, da qual a igreja é a depositária, e que pode ser transmitida aos sacramentos; e perde completamente a noção do fato de que os sacramentos não podem efetuar esta união, porquanto já a pressupõem.

D. Significado da União Mística.


1. A união mística, no sentido em que dela falamos agora, não é o fundamento judicial sobre cuja base nos tornamos partícipes das riquezas que há em Cristo. Às vezes se diz que os méritos de Cristo não nos poderão ser imputados enquanto não estivermos em Cristo, desde que somente com base em nossa unidade dom Cristo é que tal imputação pode ser razoável. Mas este conceito deixa de distinguir entre a nossa unidade legal e a nossa unidade espiritual com Cristo, e é uma falsificação do elemento fundamental da doutrina da redenção, qual seja, a doutrina da justificação. A justificação é sempre uma declaração de Deus não com base numa condição existente, mas ma de uma graciosa imputação – declaração que não está em harmonia com a existente condição do pecador. O fundamento judicial de toda a graça especial que recebemos jaz no fato de que a justiça de Cristo nos é imputada livremente.

2. Mas este estado de coisas, a saber, que o pecador nada tem em si mesmo e recebe tudo livremente de Cristo, deve refletir-se na consciência do pecador. E isso tem lugar pela mediação da união mística. Se bem que a união é efetuada quando o pecador é renovado pela operação do Espírito Santo, ele não terá conhecimento dela e não a cultivará enquanto não começar a operação pela fé. Então ele fica ciente de que não possui justiça própria, e de que a justiça pela qual ele é visto como justo diante de Deus lhe é imputada. Mas mesmo assim, requer-se algo adicional. O pecador deve sentir sua dependência de Cristo nas profundezas do seu ser – em sua vida subconsciente. Daí ele é incorporado a Cristo e, como resultado, percebe que toda a graça que ele recebe flui de Cristo. O constante sentimento de dependência assim gerado, é um antídoto contra toda justiça própria.

3. A união mística com Cristo também assegura para o crente o poder continuamente transformador da vida de Cristo, não somente na alma, como também no corpo. A alma se renova gradativamente, à imagem de Cristo, como Paulo o expressa em 2 Co 3.18: “somos transformados de glória em glória, na sua própria imagem, como pelo Senhor, o Espírito”. E o corpo é consagrado no presente, para ser um bom instrumento da alma renovada, e por fim será elevado à semelhança do corpo glorificado de Cristo, Fp 3.21. Estando em Cristo, os crentes compartem todas as bênçãos que Ele mereceu para o Seu povo. Ele é para os Seus um manancial perene a jorrar para a vida eterna.

4. Em virtude desta união, os crentes têm comunhão com Cristo. Exatamente como Cristo participou dos labores, dos sofrimentos e das tentações do Seu povo, este agora é levado a participar das Suas experiências. Em certa medida, os Seus sofrimentos se reproduzem e se completam nas vidas dos Seus seguidores. Estes são crucificados com Ele, e também ressuscitam em novidade de vida. A vitória final de Cristo é também a vitória deles. Ver Rm 6.5, 8; 8.17; 2 Co 1.7; Fp 3.10; 1 Pe 4.13.

5. Finalmente, a união dos crentes com Cristo fornece a base para a unidade espiritual de todos os crentes, e, conseqüentemente, para a comunhão dos santos. Eles são animados pelo mesmo espírito, ficam cheios do mesmo amor, permanecem na mesma fé, empenham-se na mesma luta, e estão ligados pelo mesmo objetivo. Juntos estão interessados nas coisas de Cristo e Sua igreja, nas coisas de Deus e do Seu reino. Ver Jo 17.20, 21; At 2.42; Rm 12.15; Ef 4.2, 3; Cl 3.16; 1 Ts 4.18; 5.11; Hb 3.13; 10.24, 25; Tg 5.16; 1 Jo 1.3, 7.

QUESTIONÁRIO PARA PESQUISA: 1. Qual o sentido do termo “mística” como é ele aplicado à união com Cristo? 2. Qual a relação entre a graça na esfera legal e a graça na esfera moral? 3. Como responder à asseveração de que o pecador não pode participar das bênçãos da graça especial de Deus, enquanto não for incorporado subjetivamente a Cristo? 4. Que se pode dizer em réplica à asserção de que a fé precede à regeneração porque efetua a união com Cristo, quando a regeneração é fruto desta união? 5. A união mística suprime ou preserva a personalidade do homem? Cf. Ef 4.13. 6. Todos os crentes auferem benefícios iguais desta união? 7. Se esta união é indissolúvel, como entender Jo 15.1-7? 8. Como Schleiermacher concebe a união do crente com Cristo?

BIBLIOGRAFIA PARA CONSULTA: Bavinck, Geref. Dogm. III, p. 594, 595; IV, p. 114, 226, 227, 268, 269; Kuyper, Het Werk van den Heiligen Geest II, p. 163-182; Dabney, Syst. and Polem. Theol., p. 612-617; Strong, Syst. Theol., p. 795-808; Dick. Theol., p. 36-365; Hodge, Outlines, p. 482-486; ibid., The Atonement, p. 198-211; McPherson, Chr. Theol., p. 402-404; Valentine, Chr. Theol. II, p. 275-277; Schhmid, Doct. Theol. p. 485-491; Litton, Introd. to dogm. Theol., p. 321,322.
(Teologia Sistemática – Louis Berkhof. Pg. 449)

Vocação em Geral e Vocação Externa

A. Razões Para Discutir Primeiro a Vocação.

A questão da ordem relativa da vocação e da regeneração tem sido discutida com freqüência, e muitas vezes a discussão foi prejudicada pela falta de discriminação e por um resultante entendimento errôneo. Os termos “vocação” e “regeneração” nem sempre foram usados no mesmo sentido. Conseqüentemente, foi possível sustentar, sem incoerência, por um lado, que a vocação precede à regeneração, e, por outro, que a regeneração é anterior à vocação. Consideraremos resumidamente (1) as representações que se acham na Escritura e em nossos padrões confessionais. (2) a ordem geralmente seguida pelos teólogos reformados (calvinistas); e (3) as razões que podem ser apresentadas em favor de uma discussão separada da vocação externa mediante a Palavra, considerada como precedendo tanto a regeneração como à vocação interna.

1. A REPRESENTAÇÃO BÍBLICA. A ordem bíblica é indicada principalmente por algumas passagens bem conhecidas. Vem primeiramente a visão dos ossos secos em Ez. 37.1-14. Enquanto Ezequiel profetizava sobre os ossos secos da casa de Israel, o sopro da vida os penetrou. Esta passagem se refere à restauração civil e ao avivamento espiritual da casa de Israel, e também, contem provavelmente uma alusão à ressurreição dos seus mortos. Ela apresenta a palavra como precedendo a origem da nova vida do povo de Israel. Naturalmente, isto não significa, todavia, que aquela se relaciona em termos causais com esta. ... Uma passagem muito instrutiva é a de At 16.14, que fala da conversão de Lídia. Durante a pregação de Paulo, o Senhor abriu o coração de Lídia para que esta desse atenção às coisas que o apóstolo falava. Dá-se a entender claramente que a abertura do coração é precedida pela vocação externa e é seguida pela vocação interna. Vê-se a unidade existente entre os dois aspectos da vocação. ... A declaração feita por Paulo em Rm 4.17 também é freqüentemente citada neste contexto, mas dificilmente pode ser considerada relevante, porque não se refere, nem à vocação externa, nem à vocação interna, mediante a pregação da Palavra, mas, sim, ou ao fiat criador de Deus, pelo qual as coisas foram chamadas à existência, ou à Sua ordem dada às coisas que não existem, como se existissem, e abrangendo até os mortos. ... Outra passagem é a de Tg 1.18, “Pois segundo o seu querer, ele nos gerou pela palavra da verdade, para que fôssemos como que primícias das suas criaturas”. Dificilmente se pode duvidar de que a palavra da verdade mencionada aí é a palavra da pregação, e a pressuposição é de que esta palavra precede ao novo nascimento e, nalgum sentido, é instrumento para a ocorrência desta. ... E, finalmente, há uma passagem muito conhecida, a de 1 Pe 1.23, em que o apóstolo fala que os crentes foram “regenerados, não de semente corruptível, mas de incorruptível, mediante a palavra de Deus, a qual vive e é permanente”. Em vista do versículo 25, a palavra a que esta passagem se refere só pode ser a palavra do Evangelho, pregado aos destinatários da missiva. Esta passagem de Pedro também implica que a palavra da pregação precede à regeneração e está instrumentalmente relacionada com esta. Tendo em conta estas passagens, conclui-se com perfeita segurança que, no caso dos adultos, a vocação externa mediante a pregação da palavra geralmente precede à regeneração. Se elas também dão base para a asserção de que a vocação interna é anterior à implantação da nova vida, é uma questão que não é preciso considerar nesta altura.

2. O CONCEITO APRESENTADO EM NOSSOS PADRÕES CONFESSIONAIS. Os nossos padrões confessionais também implicam que, no caso dos adultos, a pregação da Palavra precede à regeneração, mas devemos ter em mente que eles não utilizam a palavra “regeneração” no sentido limitado em que é empregada hoje. A Confissão Belga diz, no artigo XXIV: “Cremos que esta fé verdadeira, produzida no homem pelo ouvir a Palavra de Deus e pela operação do Espírito Santo, regenera-o de fato e faz dele um novo homem, levando-o a viver uma vida nova e livrando-o da escravidão do pecado”. A fé é produzida no homem pelo ouvir a Palavra e, por sua vez, ela produz a regeneração, isto é, a renovação do homem na conversão e na santificação. Os Cânones de Dort contêm uma descrição um pouco mais detalhada nos capítulos III e IV, artigos 11 e 12: “Mas quando Deus leva a efeito o Seu beneplácito nos eleitos, ou produz neles a conversão verdadeira, Ele não só faz com que o Evangelho lhes seja pregado externamente, e ilumina poderosamente as suas mentes mediante o Seu Santo Espírito, para que eles possam compreender e discernir acertadamente as coisas do Espírito de Deus, mas, pela eficácia do mesmo Espírito regenerador, Ele penetra os mais íntimos recessos do homem .... E esta é a regeneração tão altamente celebrada na Escritura e denominada nova criação: uma ressurreição dos mortos; uma ação revivificadora que Deus opera em nós sem o nosso auxílio. Mas isto de modo algum é efetuado apenas pela pregação externa do Evangelho, pela persuasão moral, ou por um modo de operação que, após Deus ter realizado a Sua parte, ainda permanece em poder do homem o ser regenerado ou não, converter-se ou continuar inconverso”, etc. Nestes artigos, as palavras “regeneração” e “conversão” soa usadas uma pela outra. É mais que evidente, porém, que elas não denotam a mudança fundamental da disposição dominante da alma, como tampouco a mudança resultante das manifestações externas da vida. E esta mudança não é produzida inteiramente pela pregação do Evangelho, mas, ao menos em parte o é. Conseqüentemente, esta é anterior.

3. A ORDEM GERALMENTE SEGUIDA PELOS TEÓLOGOS REFORMADOS (CALVINISTAS). Entre os reformados tem sido costume colocar a vocação antes da regeneração, embora alguns poucos tenham invertido a ordem. Mesmo Maccovius, Voetius e Comrie, supralapsários todos, seguem a ordem usual. Várias considerações dispuseram os teólogos reformados em geral a colocar a vocação antes da regeneração.*

a. Sua doutrina da aliança da graça. Eles consideravam a aliança da graça como o grande e totalmente compreensivo bem que Deus, com infinita misericórdia, concede a pecadores, um bem que inclui todas as bênçãos da salvação e, portanto, inclui a regeneração. Mas esta aliança está inseparavelmente ligada ao Evangelho. Ela é anunciada e dada a conhecer no Evangelho, do qual Cristo é o centro vivo, e, portanto, não existe sem ele. Onde não se conhece o Evangelho, não se realiza a aliança, mas onde se prega o Evangelho, Deus estabelece a Sua aliança e glorifica a Sua graça. Tanto na pregação do Evangelho como a administração da aliança precedem às operações salvíficas do Espírito Santo e a participação do crente na salvação realizada por Cristo.

b. Sua concepção da relação entre a obra de Cristo e a do Espírito Santo. Os anabatistas não fizeram justiça a esta relação. Cristo e Sua obra redentora são-nos apresentados no Evangelho. E é de Cristo, como o Mediador de Deus e do homem e como a causa meritória da nossa salvação, que o Espírito Santo deriva tudo quanto comunica aos pecadores. Conseqüentemente, Ele junta a Sua obra à pregação do Evangelho e opera de maneira salvífica somente onde chega a mensagem da redenção. O Espírito Santo não age sem o Cristo apresentado no Evangelho.

c. Sua reação contra o misticismo dos anabatistas. Os anabatistas partiam da suposição de que a regeneração efetua, não apenas uma renovação da natureza humana, mas, sim, uma criação inteiramente nova. Sendo assim, eles achavam impossível que qualquer coisa pertencente a esta criação natural, como, por exemplo, a linguagem humana com a qual a Palavra de Deus é trazida ao homem, servisse de instrumento para a comunicação da nova vida aos pecadores. Como eles a viam, a regeneração eo ipso (por isso mesmo) exclui o uso da Palavra como meio, uma vez que, afinal de contas, esta é apenas letra morta. Esta tendência mística foi vigorosamente combatida pelos teológicos reformados (calvinistas).

d. Sua experiência com relação à renovação espiritual dos adultos. Conquanto fosse, opinião firmada que os filhos da aliança que morrem na infância são renascidos e, portanto, são salvos, não havia opinião unânime quanto à época em que os que crescem se tornam partícipes da graça da regeneração. Alguns partilhavam a opinião de Voetius, de que todas as crianças eleitas são regeneradas no batismo, e que a nova vida, mesmo nos adultos, pode permanecer oculta por muitos anos. Contudo, a grande maioria relutava em tomar essa posição, e sustentava que a nova vida, se presente, revelar-se-á de algum modo. A experiência lhes ensinara que muitos não dão provas da nova vida senão depois de ouvirem o Evangelho durante anos.

4. RAZÕES PARA UMA DISCUSSÃO SEPARADA DA VOCAÇÃO EXTERNA COMO ANTERIOR À REGENERAÇÃO.

a. Clareza da apresentação. A vocação externa e a interna são essencialmente uma só; todavia, podem e devem ser distinguidas cuidadosamente. Pode surgir um debate a respeito de uma delas, sem nenhum interesse quanto à outra. Pode ser posto em dúvida se a vocação interna precede logicamente à regeneração, no caso dos adultos, conquanto não haja nenhuma incerteza nesta questão quanto à vocação externa mediante o Evangelho. Daí, pode-se considerar desejável tratar primeiro da vocação externa, e depois empreender a discussão da vocação interna em conexão com a da regeneração.

b. Natureza preparatória da vocação externa. Se partirmos do pressuposto de que a ordo salutis trata da aplicação efetiva da redenção realizada por Cristo, logo acharemos que a vocação externa mediante a Palavra de Deus dificilmente poderá, estritamente falando, ser chamada um dos seus estágios. Enquanto esta vocação não se tornar, pela acompanhante operação do Espírito Santo, uma vocação interna e eficaz, só tem significação preliminar e preparatória. Vários teólogos reformados falam dela como uma espécie de graça comum, visto que ela não flui da eleição eterna e da graça salvadora de Deus, mas antes, da Sua bondade comum e visto que, apesar de produzir às vezes certa iluminação da mente, não enriquece o coração com a graça salvadora de Deus.[1]

c. Natureza geral da vocação externa. Enquanto que todos os outros movimentos do Espírito Santo que constam na ordo salutis terminam somente nos eleitos, a vocação externa mediante o Evangelho tem maior amplitude. Onde quer que se pregue o Evangelho, o chamamento é dirigido igualmente aos eleitos e ao réprobos. Atende ao propósito, não somente de levar os eleitos à fé e à conversão, mas também de revelar o grande amor de Deus aos pecadores em geral. Por seu intermédio, Deus defende o Seu direito à obediência de todas as Suas criaturas racionais, restringe a manifestação do pecado e promove a justiça cívica, a moralidade externa e até mesmo exercícios religiosos externos.[2]

(Teologia Sistemática – Louis Berkhof. Pg. 453)



* A Confissão de Westmisnter trata da vocação eficaz e da regeneração no capítulo X, intitulado Da Vocação Eficaz, sem utilizar o termo “regeneração” e seus cognatos, exceto na seção III, sobre a salvação das crianças. Nota do tradutor.
[1] Cf. referências acima, 4ª parte, III, A4 e B2, e também a Marck, Godgeleerdheid XXIII. 3.
[2] Cf. Bavinck, Geref. Dogm. IV, p. 7, 8.

Vocação em Geral

Desde que a vocação externa é apenas um aspecto da vocação em geral, teremos que considerar esta resumidamente, antes de adentrar a discussão da vocação externa.

1. O AUTOR DA NOSSA VOCAÇÃO. A nossa vocação é obra do Deus triúno. É primeiramente uma obra realizada pelo Pai, 1 Co 1.9; 1 Ts 2.12; 1 Pe 5.10. Mas o Pai faz todas as coisas por meio do Filho; e, assim, esta vocação é também atribuída ao Filho, Mt 11.28; Lc 5.32; Jo 7.37; Rm 1.6(?). E Cristo, por Sua vez, chama por meio da Sua Palavra e do Seu Espírito, Mt 10.20; Jo 15.26; At 5.31, 32.

2. VOCATIO REALIS ET VERBALIS (Vocação Real e Verbal). Os teólogos reformados geralmente falam de uma vocatio realis, como distinta da vocatio verbalis. Com isto, referem-se ao chamamento externo dirigido aos homens por meio da revelação geral de Deus, uma revelação da lei e não do Evangelho, para reconhecerem, temerem e honrarem a Deus como o seu Criador. Este chamamento lhes vem por meio de coisas (res), antes que por palavras: pela natureza e pela história, pelo meio ambiente em que vivem e pelas experiências e vicissitudes das suas vidas, Sl 19.1-4; At 16.16, 17; 17.27; Rm 1.19-21; 2.14, 15. Este chamamento ignora a Cristo e, portanto, não pode levar à salvação. Ao mesmo tempo, é da maior importância em sua relação com a restrição do pecado, com o desenvolvimento da vida natural e com a manutenção da boa ordem na sociedade. Não é esta a vocação na qual estamos interessados agora. Na soteriologia, unicamente a vocatio verbalis entra em consideração e esta se pode definir como o ato gracioso de Deus pelo qual Ele convida os pecadores a aceitarem a salvação oferecida em Cristo Jesus.

3. DIFERENTES CONCEPÇÕES DA VOCATIO VERBALIS. A vocatio verbalis é, como a própria expressão o sugere, o chamamento divino que chega ao homem por intermédio da pregação da Palavra de Deus. De acordo com os católicos romanos, este chamamento pode chegar-lhe também por meio da ministração do batismo. De fato, eles consideram o sacramento como o mais importante meio de levar o homem a Cristo, e atribuem à pregação do Evangelho uma significação decididamente subordinada. O central para Roma é o altar, não o púlpito. No transcurso do tempo evidenciou-se considerável diferença de opinião sobre a questão, por que o Evangelho se mostra eficaz nalguns casos e noutros não. Pelágio buscou a solução disso na vontade arbitrária do homem. Por natureza o homem tem uma vontade perfeitamente livre, de modo que ele pode aceitar ou rejeitar o Evangelho, como queira, e assim pode obter ou deixar de obter as bênçãos da salvação. Agostinho, por outro lado, atribuía a diferença à operação da graça de Deus. Ele dizia: “O ouvir o chamamento divino é produzido pela própria graça divina naquele que antes lhe resistia; e então se acende nele o amor pela virtude, quando ele pára de resistir”. O semipelagianismo procurou um termo médio entre ambos, evitando tanto a negação agostiniana da vontade livre (do livre arbítrio) como a depreciação pelagiana da graça divina. Admitia a presença das sementes da virtude no homem, as quais tendem por si mesmas, a dar bom fruto, mas sustentavam que estas precisam, para o seu desenvolvimento, da influência frutificativa da graça divina. A graça necessária para isso é dada gratuitamente a todos os homens, de modo que, com o seu auxílio, eles são capazes de aceitar o Evangelho para a salvação. Portanto, o chamamento será eficiente, desde que o homem, ajudado pela graça divina, o aceite. Esta doutrina veio a prevalecer na Igreja Católica Romana. Alguns católicos romanos mais recentes, dos quais Belarmino é um dos mais importantes, criaram a doutrina do congruísmo, segundo a qual a aceitação do chamamento do Evangelho depende das circunstâncias em que ele chega ao homem. Se estas são côngruas, isto é, adequadas ou favoráveis, ele o aceitará, se não, o rejeitará. Naturalmente, o caráter das circunstâncias dependerá grandemente da operação da graça proveniente. Lutero desenvolveu a idéia de que, enquanto que a lei opera o arrependimento, o chamamento do Evangelho traz consigo o dom do Espírito Santo. O Espírito está na Palavra, e portanto, o chamamento, em si mesmo, é sempre suficiente e, em sua intenção, é sempre eficaz. A razão pela qual este chamamento nem sempre leva a efeito o resultado desejado e tencionado jaz no fato de que, em muitos casos, os homens colocam no caminho uma pedra de tropeço, de sorte que, afinal de contas, o resultado é determinado pela atitude negativa do homem. Embora alguns luteranos ainda falem de vocação externa e interna, insistem em que a primeira nunca vem desacompanhada da segunda. Essencialmente, o chamamento é sempre eficaz, de maneira que não há realmente lugar para a distinção. A vigorosa insistência de Lutero no caráter eficaz do chamamento do Evangelho deve-se à depreciação anabatista dele. Os anabatistas virtualmente puseram de lado a Palavra de Deus como meio de graça e davam ênfase àquilo que denominavam palavra interna, “luz interior” e iluminação do Espírito Santo. Para eles, a palavra externa não passa de letra que mata, ao passo que a palavra interna é espírito e vida. A vocação externa significa pouco ou nada em seu esquema. A distinção entre vocação externa e interna já se acha em Agostinho, foi tomada por empréstimo por Calvino e, assim, ganhou proeminência na teologia reformada (calvinista). Segundo Calvino, o chamamento do Evangelho não é eficiente em si mesmo, mas lhe é dada eficácia pela operação do Espírito Santo, quando Este aplica salvadoramente a Palavra ao coração do homem; e esta aplicação é feita somente aos corações e vidas dos eleitos. Deste modo, a salvação do homem é obra de Deus, do começo ao fim. Por Sua graça salvadora, Deus não somente capacita o homem, mas também o leva a dar ouvidos ao chamamento do Evangelho para a salvação. Os arminianos não ficaram satisfeitos com esta posição, mas virtualmente retornaram ao semipelagianismo da Igreja Católica Romana. Segundo eles, a proclamação universal do Evangelho é acompanhada pela graça universal suficiente – “uma assistência graciosa real e universalmente outorgada, suficiente para habilitar todos os homens para, se o quiserem, alcançar a plena posse das bênçãos espirituais e, finalmente, a salvação”.[1]Mais uma vez se faz que a obra de salvação dependa do homem. Isto marcou o início de um retorno racionalista à posição pelagiana, que nega inteiramente a necessidade de uma operação interna do Espírito Santo para a salvação.

(Teologia Sistemática – Louis Berkhof. Pg. 455)



[1] Cunningham, Hist. Theol. II, p. 396.

Vocação Externa

A Bíblia não faz uso do termo “externa”, mas fala claramente de uma vocação que não é eficaz. Esta é pressuposta na grande comissão, como se acha em Mc 16.15, 16: “Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura. Quem crer e for batizado será salvo: quem, porém, não crer será condenado”. A parábola das bodas, em Mt 22.2-14, ensina claramente que alguns convidados não compareceram, e conclui com as bem conhecidas palavras: “Porque muitos são chamados, mas poucos escolhidos”. A mesma lição é-nos ensinada na parábola da grande ceia, em Lc 14.16-24. Outras passagens falam explicitamente de uma rejeição do Evangelho, Jo 3.36; At 13.46; 2 Ts 1.8. Ainda outras falam do terrível pecado da incredulidade, em termos que mostram que havia alguns que o cometeram, Mt 10.15; 11.21-24; Jo 5.40; 16.8,9; 1 Jo 5.10. A vocação externa consiste na apresentação e oferta da salvação em Cristo aos pecadores, juntamente com uma calorosa exortação a aceitarem a Cristo pela fé, para obterem o perdão dos pecados e a vida eterna.

1. ELEMENTOS NELA CONTIDOS.

a. Uma apresentação dos fatos do Evangelho e da doutrina da redenção. O método de redenção revelado em Cristo deve ser exposto com clareza em todas as suas relações. O plano divino de redenção, a obra salvadora de Cristo e as operações renovadoras e transformadoras do Espírito Santo devem ser interpretados segundo as suas relações mútuas. Deve-se ter em mente, porém, que uma simples apresentação das verdades da redenção, não importa quão bem feita, ainda não constitui o chamamento do Evangelho. Não é somente fundamental, mas é até uma parte importante dele. Ao mesmo tempo, de maneira nenhuma constitui a totalidade desse chamamento. De acordo com a nossa concepção reformada (calvinista), também lhe pertencem os seguintes elementos.

b. Um convite ao pecador para aceitar a Cristo com arrependimento e fé. A descrição do método de salvação deve ser suplementada por um fervoroso convite ao pecador (2 Co 5.11, 20) para arrepender-se e crer, isto é, para aceitar a Cristo pela fé. Mas, a fim de que esta vinda a Cristo não seja entendida num sentido superficial, como muitas vezes os avivalistas a apresentam, a verdadeira natureza do arrependimento e da fé que se requerem deve ser exposta claramente. Deve-se deixar perfeitamente claro que o pecador não tem poderes para arrepender-se e crer verdadeiramente, mas que é Deus que efetua nele “tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade”

c. Uma promessa de perdão e salvação. A vocação externa contém igualmente uma promessa de que serão aceitos todos os que cumprirem as condições, não com suas forças, mas pelo poder da graça de Deus produzida nos seus corações pelo Espírito Santo. Os que pela graça se arrependem dos seus pecados e aceitam a Cristo pela fé recebem a firme certeza do perdão dos pecados e da salvação eterna. Esta promessa, é bom que se note, nunca é absoluta, mas, antes, é sempre condicional. Ninguém pode esperar o seu cumprimento, a não ser no modo de fé e arrependimento verdadeiramente produzido por Deus.

Do fato de que estes elementos estão incluídos na vocação externa, pode-se inferir prontamente que aqueles que rejeitam o Evangelho, não apenas se recusam a acreditar em certos fatos e idéias, mas resistem à operação geral do Espírito Santo, que se relaciona com esta vocação, e pesa sobre eles a culpa do pecado de obstinada desobediência. Com sua recusa a aceitarem o Evangelho, aumentam a sua responsabilidade e entesouram ira sobre si, para o dia do juízo, Rm 2.4,5. Que os elementos supracitados estão realmente incluídos na vocação externa, evidenciam-se as seguintes passagens da Escritura: (a) De acordo com At 20.27, Paulo considera a declaração de todo o conselho de Deus como uma parte do chamamento, e, Ef 3.7-11 ele volta a relatar alguns dos pormenores que tinha declarado aos leitores. (b) Exemplos do chamamento ao arrependimento e à fé se encontram em passagens como Ez 33.11; Mc 1.15; Jo 6.29; 2 Co 5.20. (c) e a promessa está contida nas seguintes passagens, Jo 3.16-18, 36; 5.24,40.[1]

2. CARACTERÍSTICAS DA VOCAÇÃO EXTERNA.

a. É geral ou universal. Não se deve entender insto no sentido em que foi entendido por alguns dos antigos teólogos luteranos, qual seja, que o chamamento chegou de fato todos os viventes mais de uma vez no passado, como por exemplo, no tempo de Adão, no de Noé e nos dias dos apóstolos. Diz acertadamente McPherson: “Um chamamento dessa espécie não é um fato, mas uma simples teoria inventada com alguns propósitos”.[2] Nessa apresentação, os termos “geral” e “universal” não são empregados no sentido visado quando se diz que o chamamento do Evangelho é geral ou universal. Além disso, a referida apresentação é ao menos contrária aos fatos. A vocação externa é geral somente no sentido de que ela vem a todos os homens a quem o Evangelho é pregado, indiscriminadamente. Não está confinada a alguma idade ou classe de homens. Vem aos justos e aos injustos, aos eleitos e aos réprobos. As seguintes passagens testificam a natureza geral desta vocação: Is 55.1, “Ah! Todos vós os que tendes sede, vinde às águas; e vós os que não tendes dinheiro, vinde, comprai, e comei: sim, vinde comprai, sem dinheiro e sem preço, vinho e leite” cf. também os versículos 6 e 7. Em conexão com esta passagem, é concebível que se possa dizer que somente os pecadores espiritualmente qualificados são chamados: mas não se pode dizer isso de Is 45.22, “’Olhai para mim, sede salvos, todos os termos da terra; porque eu sou Deus, e não há outro”. Alguns também interpretam o conhecido convite de Jesus em Mt 11.28, “Vinde a mim todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei”, como limitado aos que se encontram verdadeiramente preocupados com os seus pecados e realmente contritos; mas não há base para tal limitação. O último livro da Bíblia conclui com um belo convite geral: “O Espírito e a noiva dizem: Vem. Aquele que tem sede, venha, e quem quiser receba de graça a água da vida” Ap 22.17. Que o convite do Evangelho não se limita aos eleitos, como alguns afirmam, é completamente evidenciado por passagens como estas: Sl 81.11-13; Pv 1.24-26; Ez 3.19; Mt 2.2-8, 14; Lc 14.16-24.

O caráter geral desta vocação também é ensinado nos Cânones de Dort.[3] Todavia, repetidamente esta doutrina encontrou oposição de indivíduos e grupos nas igrejas reformadas (calvinistas). Na Igreja Escocesa do século dezessete alguns negavam completamente o convite e oferta da salvação indiscriminado, enquanto outros queriam limita-los às fronteiras da igreja invisível.contra estes erros os homens de Marrow,* como Boston e os Erskine, o defendiam. Os que sustentavam a oferta universal eram chamados pregadores da nova luz, ao passo que os que defendiam a oferta particular, a oferta aos que já evidenciavam alguma porção da graça especial e, portanto, podiam ser contados entre os eleitos, eram conhecidos como pregadores da velha luz. Mesmo nos dias atuais, ocasionalmente nos defrontamos com alguma oposição sobre este ponto. Dizem que esse convite e oferta geral é incoerente com a doutrina da predestinação e com a da expiação particular, doutrinas nas quais, segundo se pensa, o pregador deve tomar seu ponto de parida. Mas a Bíblia não ensina que o pregador deve tomar seu ponto de partida nestas doutrinas, por importantes que sejam. Seu ponto de partida e sua autoridade estão na comissão do seu Rei: “Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura. Quem crer e for batizado será salvo; quem, porém, não crer será condenado”, Mc 16.15, 16. Além disso, é uma impossibilidade total alguém, ao pregar o Evangelho, limitar-se aos eleitos, como alguns gostariam que fizéssemos, uma vez que ele não sabe quais são as pessoas eleitas. Jesus sabia, mas não limitou desse modo o oferecimento da salvação, Mt 22.3-8, 14; Lc 14.16-21; Jo 5.38-40. Haveria uma real contradição entre as doutrinas reformadas (calvinistas) da predestinação e da expiação particular, de um lado, e a oferta universal da salvação, de outro Aldo, se esta oferta incluísse a declaração de que Deus tem o propósito de salvar todo ouvinte individual do Evangelho, e de que Cristo realmente expiou os pecados de cada um deles. Mas o convite do Evangelho não envolve tal declaração. Este é um gracioso chamamento para que o pecador aceite a Cristo pela fé, e uma promessa condicional de salvação. A condição só se cumpre nos eleitos, e, portanto, somente eles podem obter a vida eterna.

b. É um chamamento bona fide (de boa fé). A vocação externa é um chamamento feito com boa fé, um chamamento feito com seriedade de intenção. Não é um convite que vai de parceria com a esperança de que não será aceito. Quando Deus Chama o pecador para que aceite a Cristo pela fé, Ele o deseja ardentemente; e quando promete aos que se arrependem e crêem a vida eterna, Sua promessa é fidedigna. Isto decorre da própria natureza de Deus, de Sua veracidade. É blasfemo pensar que Deus pode ser acusado de equívoco e engano, que Ele diz uma coisa e quer dizer outra, que Ele argumenta fervorosamente com o pecador para que se arrependa e creia para a salvação e, ao mesmo tempo, não deseja isso em nenhum sentido da palavra. O caráter bona fide da vocação externa é comprovado pelas seguintes passagens da Escritura: Nm 23.19; Sl 81.13-16; Pv 1.24; Is 1.18-20; Ez 18.23, 32; 33.11; Mt 21.37; 2 Tm 2.13. Os Cânones de Dort o afirma explicitamente em III e IV, 8. Várias objeções têm sido apresentadas à idéia dessa oferta bona fide de salvação. (1) Uma objeção é derivada da veracidade de Deus. Diz-se que, segundo esta doutrina, Ele oferece o perdão dos pecados e a vida eterna àqueles a quem Ele não tem nenhuma intenção de fazer essas dádivas. Não há necessidade de negar que há uma real dificuldade neste ponto, mas esta é a dificuldade com que nos confrontamos toda vez que procuramos harmonizar a vontade decretatória com a vontade preceptiva de Deus, uma dificuldade que nem os oponentes podem resolver e que muitas vezes simplesmente ignoram. Todavia, não devemos supor que ambas são realmente contraditórias. A vontade decretatória determina o que cm toda a certeza virá a acontecer (sem implicar necessariamente que Deus tem prazer em tudo que acontece, como, por exemplo, em todo e qualquer tipo de pecado), ao passo que a vontade preceptiva é a norma da vida do homem, informando-o a respeito daquilo que é deveras agradável aos olhos de Deus. Ademais, deve-se ter em mente que Deus não oferece aos pecadores o perdão dos pecados e a vida eterna incondicionalmente, mas somente por meio da fé e da conversão; e que a justiça de Cristo, embora não destinada a todos, é, contudo, suficiente para todos. (2) Uma segunda objeção é derivada da incapacidade espiritual do homem. O homem, como ele é por natureza, não pode crer e arrepender-se, e, daí, parece zombaria pedir-lhe que faça isso. Mas, em conexão com esta objeção, devemos lembrar-nos de que, em última análise, a incapacidade do homem nas coisas espirituais, tem suas raízes em sua indisposição para servir a Deus. A real condição das coisas não é tal que muitos gostariam de arrepender-se e crer em Cristo, se tão somente pudessem faze-lo. Todos os que não crêem não estão querendo crer, Jo 5.40. Além disso, exigir dos homens arrependimento e fé em Cristo não é mais despropositado que exigir que guardem a lei. De maneira muito incoerente, alguns dos que se opõem à oferta geral da salvação com base na incapacidade espiritual do homem, não hesitam em colocar o pecador diante das exigências da lei, e até insistem em faze-lo.

3. A SIGNIFICAÇÃO DA VOCAÇÃO EXTERNA. Pose-se inquirir porque Deus vem a todos os homens indiscriminadamente, incluindo até os réprobos, com a oferta da salvação. Esta vocação externa responde a mais de um propósito.

a. Nela Deus afirma os Seus direitos sobre o pecador. Como soberano Governador do Universo, Ele tem autoridade para exigir o serviço do homem – e isso é matéria de direito absoluto. E embora o homem tenha rompido com Deus pelo pecado, e agora seja incapaz de prestar obediência espiritual ao seu justíssimo Soberano, sua transgressão voluntária não abrogou o direito de Deus ao serviço das Suas criaturas racionais. O direito que Deus tem de exigir obediência absoluta persiste, e Ele assevera este direito, tanto na lei como no Evangelho. Sua prerrogativa sobre o homem também acha expressão no chamamento para a fé e o arrependimento. E se o homem não dá atenção a este chamamento para a fé e o a este chamamento, desconsidera e menospreza a justa prerrogativa de Deus e, com isso, aumenta a sua culpa.

b. É o meio designado por Deus de levar os pecadores à conversão. Noutras palavras, é o meio pelo qual Deus reúne os eleitos, recolhendo-os das nações da terra. Como tal, tem que ser necessariamente geral ou universal, desde que nenhum homem pode indicar os eleitos. Naturalmente, o resultado final, é que os eleitos, e somente os eleitos, aceitam a Cristo pela fé. Não significa que os missionários podem partir e dar aos seus ouvintes a segura certeza de que Cristo morreu em favor de cada um deles e de que a intenção de Deus é salvar cada um deles; mas significa, sim, que eles podem levar as jubilosas e alvissareiras novas de que Cristo morreu pelos pecadores, de que Ele os convida a virem a Ele, e de que Ele oferece a salvação a todos aqueles que verdadeiramente se arrependem dos seus pecados e O aceitam com uma fé viva.

c. É também uma revelação da santidade, bondade e compaixão de Deus. Em virtude da Sua santidade, Deus em toda parte dissuade do pecado os pecadores, e em virtude da Sua bondade e misericórdia, adverte-os contra a autodestruição, posterga a execução da sentença de morte e os abençoa com o oferecimento da salvação. Não há dúvida de que este oferecimento gracioso em si mesmo é uma bênção para os pecadores, e não, como alguns o entendem, uma maldição. Sim, pois, a oferta da salvação revela claramente a compaixão divina por eles, e assim é descrito na Palavra de Deus, Sl 81.13; Pv 1.24; Ez 18.23, 32; 33.11; Am 8.11; Mt 11.20-24; 23.37. Ao mesmo tempo, é certo que muitos, por sua oposição, podem transformar esta bênção em maldição. Ela naturalmente aumenta o peso da responsabilidade do pecador, e, se não for aceita e desenvolvida, intensificará o seu julgamento.

d. Finalmente, acentua claramente a justiça de Deus. Se mesmo a revelação de Deus na natureza atende ao propósito de impedir qualquer escusa que os pecadores pudessem estar inclinados a apresentar, Rm 1.20, isto é muitíssimo verdadeiro quanto à revelação especial do método de salvação. Quando os pecadores desprezam a clemência de Deus e rejeitam a Sua graciosa oferta de salvação, a enormidade da sua corrupção e culpa e a justiça de Deus ao condena-los ficam expostas com a máxima clareza.

QUESTIONÁRIO PARA PESQUISA: 1. Em quais casos os reformados (calvinistas) presumem que a regeneração precede até mesmo à vocação externa? Como relacionam eles a vocação externa com a doutrina da aliança? 3. Com que fundamento os arminianos, por ocasião do Sínodo de Dort, afirmaram que as igrejas reformadas (calvinistas) não podem ensinar coerentemente que Deus com seriedade chama indiscriminadamente os pecadores para a salvação? 4. Como os católicos romanos concebem o chamamento pela Palavra? 5. Qual a concepção luterana da vocação? 6. É correto dizer (com Alexander, Syst. of Bibl. Theol. II, p. 357 e segtes.), que a palavra, por si mesma, é adequada para efetuar uma mudança espiritual, e que o Espírito Santo Apenas remove a obstrução que impede o seu recebimento?

BIBLIOGRAFIA PARA CONSULTA: Bavinck. Geref. Dogm. IV, p. 1-15; ibid., Roeping en Wedergeboorte; Kuyper, Dict. Dogm., De Salute, p. 84-92; Mastricht, Godgeleerdeheit III, p. 192-214; à Marck, Godgeleerdheid, p. 649-651; Witsius, De Verbonden III, c. 5; Hodge, Syst. Theol. II, p. 639-653; Dabney, Theology, p. 553-559; Schmid, Doct. Theol., p. 448-456; Valentine, Chr. Theol. II p. 194-204; Pope, Chr. Theol. II, p. 335-347; W. L. Alexander, Syst. of Bibl. Thel. II, p. 357-361.
(Teologia Sistemática – Louis Berkhof. 460)



[1] Cf. também os Cânones de Dort II, 5, 6; III e IV, 8.
[2] Chr, Dogm., p. 377.
[3] II, 5; III e IV, 8.
* “The Marrow men” (homens da Medula), grupo que se formou inspirado na obra publicada originariamente em 1646, de autor desconhecido, e reeditada em 1718 por alguns teólogos escoceses, dentre os quais Thomas Boston de Ettrick. O livro, intitulado The Marrow of Modern Divinity (A Medula da Teologia Moderna), expunha um calvinismo extremo e foi condenado em 1720 como antinomiano. Na controvérsia levantada houve pequena cisão, resultando na criação de um “Presbitério Associado”, em 1733, pela iniciativa de Ebenezer Erskine e outros três. Nota do tradutor.

Regeneração e Vocação Eficaz



A. Termos Bíblicos Para a Regeneração e Suas Implicações.


1. OS TERMOS QUE ENTRAM EM CONSIDERAÇÃO. O vocábulo grego para “regeneração” (palingenesia) só se acha em Mt 19.28 e Tt 3.5, e somente nesta última passagem se refere ao início da nova vida do cristão individual. A idéia deste início é mais comumente expressa pelo verbo gennao (com anothen em Jo 3.3), ou seu composto anagennao. Estas palavras significam, ou gerar, gerar de novo, ou dar à luz, dar nascimento, Jo 1.13; 3.3, 4, 5, 6, 7, 8; 1 Pe 1.23; 1 Jo 2.29; 3.9; 4.7; 5.1, 4, 18. Numa passagem, a saber, Tg 1.18, é empregada a palavra apokyeo, dar à luz, gerar, produzir. Ademais, a idéia da produção de uma nova vida é expressa pela palavra ktizo, criar, Ef 2.10, e o produto desta nova criação é chamada kaine ktisis (nova criatura), 2. Co 5.17; Gl 6.15, ou kainos anthropos (novo homem), Ef 4.24. Finalmente, o termo syzoopoieo, dar vida com, vivificar com, também é empregado num par de passagens, Ef 2.5; Cl 2.13.

2. IMPLICAÇÕES DESTES TERMOS. Estes termos levam consigo várias implicações importantes, para as quais se deve dirigir a atenção. (a) A regeneração é uma obra criadora de Deus e, portanto, é uma obra na qual o homem é puramente passivo, e na qual não há lugar para cooperação humana. Este é um ponto muito importante, visto que salienta o fato de que a salvação é totalmente de Deus. (b) A obra criadora de Deus produz uma vida nova, em virtude da qual o homem, vivificado com Cristo, participa da vida ressurreta e pode ser chamado nova criatura, havendo sido criado “em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas”, Ef 2.10. (c) Devemos distinguir dois elementos da regeneração, quais sejam, geração ou produção da nova vida, e o dar à luz ou o nascimento, pelo qual a nova vida é trazida à luz, retirada das suas recônditas profundezas. A geração implanta o princípio da nova vida na alma, e o novo nascimento faz que este princípio se ponha a afirmar-se em ação. Esta distinção é de grande importância para o exato entendimento da regeneração.

(Teologia Sistemática – Louis Berkhof. Pg. 462)

Emprego do Termo Regeneração na Teologia

1. NA IGREJA PRIMITIVA E NA TEOLOGIA CATÓLICA ROMANA. No modo de entender a Igreja Primitiva o termo “regeneração” não representava um conceito agudamente definido. Era utilizado para indicar uma mudança estreitamente ligada à purificação dos pecados, e não se fazia clara distinção entre a regeneração e a justificação. Identificada com a graça batismal, aquela era entendida especialmente como um designativo da remissão dos pecados, embora não estivesse excluída a idéia de certa renovação moral. Mesmo Agostinho não traçou uma linha incisiva aí, mas distinguia entre a regeneração e a conversão. Para ele, a regeneração inclui, em acréscimo à remissão do pecado, somente uma mudança inicial do coração, seguida por uma conversão posterior. Ele a concebia como uma obra estritamente monergista de Deus, na qual o sujeito humano não pode cooperar e à qual o homem não pode resistir. Para Pelágio, naturalmente, “regeneração” não significava o nascimento de uma nova natureza, mas o perdão dos pecados no batismo, a iluminação da mente pela verdade e a estimulação da vontade pelas promessas divinas. A confusão de regeneração e justificação, já visível em Agostinho, tornou-se mais pronunciada ainda no escolasticismo. De fato, a justificação tornou-se o conceito mais proeminente dos dois, era entendida como incluindo a regeneração, e era concebida como um ato no qual Deus e o homem cooperam. A justificação, de acordo com a descrição comum, inclui a infusão da graça, isto é, o nascimento de uma nova criatura ou a regeneração, e o perdão do pecado e a remoção da culpa ligando-se a ela. Contudo, havia uma diferença de opinião quanto a qual destes dois elementos é o primeiro fator lógico. Segundo Tomaz de Aquino, a infusão da graça vem primeiro, e o perdão de pecados, pelo menos em certo sentido, baseia-se nesta; mas segundo Duns Scotus, o perdão de pecados é o primeiro e serve de base para a infusão da graça. Ambos os elementos são efetuados pelo batismo, ex opere operato (pela ação do próprio objeto). A opinião de Tomaz de Aquino foi vitoriosa na igreja. Até nos dias atuais há uma certa confusão de regeneração e justificação na Igreja Católica Romana, confusão sem dúvida devida em grande parte ao fato de que a justificação não é concebida como um ato forense, mas como um ato ou processo de renovação. Nela o homem não é declarado, mas feito justo. Diz Wilmers, em seu Manual da Religião Cristã (Handbook of the Christian Religion): “Como a justificação é uma renovação ou regeneração, segue-se que o pecado é realmente destruído por ela, e não, como sustentavam os Reformadores, apenas coberto, ou não mais imputado”.

2. PELOS REFORMADORES E NAS IGREJAS PROTESTANTES. Lutero não escapou inteiramente da confusão da regeneração com a justificação. Além disso, ele falava da regeneração ou do novo nascimento num sentido muito amplo. Calvino também usava o termo num sentido muito compre, como um designativo de todo o processo pelo qual o homem é renovado, incluindo, além do ato divino que origina a nova vida, também a conversão (arrependimento e fé) e a santificação.[1] Vários escritores do século dezessete não distinguiam entre a regeneração e a conversão, e empregavam os dois termos um pelo outro, tratando daquilo que agora denominamos regeneração sob o nome de vocação ou chamamento eficaz.* Os Cânones de Dort também utilizam as duas palavras sinonimamente,[2] e a Confissão Belga parece falar da regeneração num sentido mais amplo ainda,[3] Este uso abrangente do termo “regeneração” muitas vezes levou à confusão e à desatenção a distinções muito necessárias. Por exemplo, enquanto que a regeneração e a conversão eram identificadas, ainda se declarava que a regeneração era monergista, a despeito do fato de que na conversão é certo que o homem coopera. A distinção entre a regeneração e a justificação já tinha ficado mais clara, mas gradativamente se tornou também necessário e costumeiro empregar o termo “regeneração” num sentido mais restrito. Turretino define dois tipos de conversão: primeiro, uma conversão “habitual” ou passiva, a produção de uma disposição ou um hábito da alma que, observa ele, poderia ser melhor denominada “regeneração”; e, segundo, uma conversão “real” ou “ativa”, na qual esta disposição ou este hábito implantado se torna ativo na fé e no arrependimento. Na teologia reformada (calvinista) do presente, a palavra “regeneração” é geralmente usada num sentido mais restrito, como um designativo do ato divino pelo qual o pecador é dotado de nova vida espiritual, e pelo qual o princípio dessa nova vida é posto em ação pela primeira vez. Assim concebida, ela inclui tanto a nova geração como o novo nascimento, em que a nova vida se torna manifesta. Contudo, em estrita harmonia com o sentido literal da palavra “regeneração”, o termo é às vezes empregado num sentido ainda mais limitado, para denotar simplesmente a implantação da nova vida na alma, sem as primeiras manifestações desta vida.

Na teologia “liberal” moderna, o termo “regeneração” adquiriu um sentido diferente. Schleiermacher distinguia dois aspectos da regeneração, a saber, a conversão e a justificação, e afirmava que na regeneração “uma nova consciência religiosa é produzida no crente pelo espírito cristão comum da comunidade, e a nova vida, ou a ‘santificação’, constitui o seu aparelhamento” (Pfleiderer). Esse “espírito cristão da comunidade”, é resultado de um influxo da vida divina, mediante Cristo, na igreja, e é chamado “Espírito Santo” por Schleiermacher. O conceito modernista foi bem exposto com estas palavras de Youtz: “A interpretação moderna inclina-se a regressar ao emprego simbólico do conceito de regeneração. As nossas realidades éticas lidam com caracteres transformados. Assim, a regeneração expressa uma mudança ética, radical, vital, e não um início metafísico absolutamente novo. A regeneração é um passo vital no desenvolvimento natural da vida espiritual, um radical reajustamento aos processos morais da vida”.[4] Os estudiosos da psicologia da religião geralmente deixam de distinguir entre regeneração e conversão. Consideram-na como um processo no qual a atitude do homem para com a vida muda do autocêntrico para o heterocêntrico. Ela acha sua explicação primariamente na vida subconsciente, e não envolve necessariamente nada de sobrenatural. Diz William James: “Converter-se, ser regenerado, receber a graça, ter experiência religiosa, obter segurança, são muitas das frases que denotam o processo, gradual ou súbito, pelo qual um ego até então dividido e conscientemente errado, inferior e infeliz, torna-se unificado e conscientemente certo, superior e feliz, em conseqüência do seu apego mais firme às realidades religiosas”.[5] Segundo Clark, “Os estudiosos concordaram em discernir três passos distintos da conversão: (1) Um período de ‘turbulência e tensão’, ou de senso do pecado, ou de sentimento de desarmonia interior, conhecida na teologia como ‘convicção de pecado’ e designada por James como ‘ doença da alma’. (2) Uma crise emocional que marca um ponto decisivo. (3) Uma subseqüente descontração aliada a uma sensação de paz, repouso e harmonia interior, aceitação da parte de Deus, e, não infreqüentemente, a reflexos motores e sensoriais de várias espécies”.[6]

(Teologia Sistemática – Louis Berkhof. Pg. 465)



[1] Inst. III.3,9.
* Cf. a Confissão de Fé Presbiteriana (Westminster), capítulo X. Nota do tradutor.
[2] III e IV.11.12.
[3] Art. XXIV.
[4] A Dictionary of Religion and Ethics, artigo Regeneração.
[5] Varieties of Religious Experience, p. 189.
[6] The Psichology of Religious Awakening, p. 38.

A Natureza Essencial da Regeneração

Relativamente à natureza da regeneração, há diversos conceitos errôneos que devem ser evitados. Podemos muito bem mencionar primeiro estes, antes de expor as qualificações positivas desta obra recriadora de Deus.

1. CONCEITOS ERRÔNEOS. (a) A regeneração não é uma mudança ocorrida na substância da natureza humana, como o ensinavam os maniqueus e, nos dias da Reforma, Flácio Illírico, que concebiam o pecado original como uma substância, a ser substituída por outra substância na regeneração. Nenhuma nova semente física, nenhum germe físico é implantado no homem: tampouco há qualquer adição ou subtração às faculdades da alma. (b) Também é simplesmente uma mudança ocorrida numa ou mais faculdades da alma, como, por exemplo, da vida emocional (sentimento ou coração), pela remoção da aversão às coisas divinas, como alguns conservadores a concebem; ou do intelecto, pela iluminação da mente que se acha obscurecida pelo pecado, como a consideram os racionalistas. Ela afeta o coração, compreendido no sentido bíblico da palavra, isto é, como o órgão central e totalmente dominante da alma, do qual “procedem as fontes da vida” (Pv 4.23). quer dizer que a regeneração afeta a natureza humana em sua totalidade. (c) Também não é uma mudança completa ou perfeita da natureza total do homem, ou de alguma parte dela, de sorte que ela não é mais capaz de pecar, como o ensinavam os anabatistas extremos e algumas outras seitas fanáticas. Não significa que, em princípio, ela não afeta a natureza inteira do homem, mas somente que não constitui a mudança completa, que é produzida no homem pela operação do Espírito Santo. Ela não abrange a conversão e a santificação.

2. CARACTERÍSTICAS POSITIVAS DA REGENERAÇÃO. Podem ser feitas as seguintes asserções positivas a respeito da regeneração:

a. A regeneração consiste na implantação do princípio da nova vida espiritual no homem, numa radical mudança da disposição dominante da alma, que, sob a influência do Espírito Santo, dá nascimento a uma vida que se move em direção a Deus. Em princípio, esta mudança afeta o homem completo: o intelecto, 1 Co 2.14, 15; 2 Co 4.6; Ef 1.18; Cl 3.10; a vontade, Sl 110.3; Fp 2.13; 2 Ts 3.5; Hb 13.21; e os sentimentos ou emoções, Sl 42.1; Mt 5.4; 1 Pe 1.8.

b. É uma transformação instantânea da natureza do homem, afetando imediatamente o homem todo, intelectual, emocional e moralmente. A afirmação de que a regeneração é uma mudança instantânea implica duas coisas: (1) que não é uma obra que vai sendo levada a efeito gradativamente na alma, como ensinam os católicos romanos e todos os semi-pelagianos; não há nenhum estágio intermediário entre a vida e a morte; ou a pessoa vive ou está morta; e (2) que não é um processo gradual como a santificação. É verdade que alguns escritores reformados (calvinistas) empregaram ocasionalmente o termo “regeneração” como incluindo até a santificação, mas isso foi no tempo em que a ordo salutis não estava tão completamente desenvolvida como está hoje.

c. Em seu sentido mais limitado, é uma mudança que ocorre na vida subconsciente. É uma secreta e inescrutável obra de Deus que o homem nunca percebe diretamente. A mudança pode ter lugar sem que o homem esteja cônscio dela momentaneamente, se bem que não é o que se dá quando a regeneração e a conversão coincidem; e mesmo mais tarde ele só pode percebe-la em seus efeitos. Isto explica por que um cristão pode, por um lado, lutar durante longo tempo com dúvidas e incertezas e, não obstante, pode, por outro lado, domina-las paulatinamente e ascender às alturas da segurança.

3. DEFINIÇÃO DE REGENERAÇÃO. Do que acima foi dito sobre o emprego atual da palavra “regeneração”, segue-se que se pode definir a regeneração de duas maneiras. No sentido mais restrito da palavra, podemos dizer: Regeneração é o ato de Deus pelo qual o princípio da nova vida é implantado no homem, e a disposição dominante da alma é tornada santa. Mas, a fim de incluir a idéia do novo nascimento, como também a da nova geração, será necessário complementar a definição com as seguintes palavras: “... e o primeiro exercício santo desta nova disposição é assegurado”.

(Teologia Sistemática – Louis Berkhof. Pg. 466)

A Vocação Eficaz em Relação à Vocação Externa e à Regeneração

        1. SUA INSEPARÁVEL CONEXÃO COM A VOCAÇÃO EXTERNA. Pode-se dizer que a vocação de Deus é uma só, e a distinção ente uma vocação externa e uma vocação interna ou eficaz simplesmente chama a atenção para o fato de que esta vocação única tem dois aspectos. Não significa que estes dois aspectos estão sempre unidos e sempre andam juntos. Não asseveramos, com os luteranos, que “a vocação interna é sempre concorrente com o ouvir a palavra”.[1] Significa, porém, que onde a vocação interna chega aos adultos, é medida pela pregação da Palavra. A mesma Palavra ouvida na vocação externa torna-se eficiente no coração, na vocação interna. Pela poderosa aplicação feita pelo Espírito Santo, a vocação externa passa direto para a vocação interna.[2] Mas,embora esta vocação esteja estreitamente relacionada com a vocação externa e forme uma unidade com ela, há certos pontos de diferença: (a) É uma vocação pela Palavra, salvadoramente aplicada pela operação do Espírito Santo, 1 Co 1.23, 24; 1 Pe 2.9; (b) É uma vocação poderosa, isto é, uma vocação que é eficaz para a salvação, At 13.48; 1 Co 1.23, 24; e (c) É sem arrependimento, isto é, não está sujeita a mudança e jamais será retirada, Rm 11.29.

2. CARACTERÍSTICAS DA VOCAÇÃO INTERNA. Devemos notar as seguintes características:

a. Ela age por meio da suasão moral, mais a poderosa operação do Espírito Santo. Surge a questão sobre se nesta vocação (como distinta da regeneração) a Palavra de Deus age de maneira criadora, ou pela persuasão moral. Pois bem, não há dúvida de que às vezes se diz que a Palavra de Deus age de maneira criadora, Gn 1.3; Sl 33.6, 9; 147.15; Rm 4.17 (embora se possa interpretar isto diferentemente). Mas estas passagens se referem à Palavra do poder de Deus, ao Seu mando cheio de autoridade, e não à palavra da pregação da qual nos ocupamos aqui. O Espírito Santo opera através da pregação da Palavra somente de maneira persuasiva, dando eficiência às suas palavras de persuasão, para que o homem ouça a voz do seu Deus. Isto decorre da própria natureza da Palavra , que se dirige ao entendimento e à vontade.[3] Deve-se ter em mente, porém, que esta suasão moral ainda não constitui a totalidade da vocação interna; requer-se, em acréscimo a isso, uma poderosa operação do Espírito Santo, aplicando a Palavra ao coração.

b. Ela opera na vida consciente do homem. Este ponto está muito intimamente relacionado com o anterior. Se a palavra da pregação não opera criadoramente, mas somente persuasiva, segue-se que ela só pode agir na vida consciente do homem. Ela se dirige ao entendimento, que o Espírito reveste de discernimento espiritual da verdade, e por meio do entendimento, influencia efetivamente a vontade, de modo que o pecador se volta para Deus. A vocação interna necessariamente redunda na conversão, isto é, num consciente abandono do pecado, rumo à santidade.

c. É teológica. A vocação interna é de caráter teológico, isto é, chama o homem para um certo fim: para a grande meta à qual o Espírito Santo está conduzindo os eleitos, e, conseqüentemente, também aos estágios intermediários do caminho para este destino final. É uma vocação para a comunhão de Jesus Cristo, 1 Co 1.9; para herdarem bênçãos, 1 pe 3.9; para a liberdade, Gl 5.13; para a paz, 1 Co 7.15; para a santidade, 1 Ts 4.7; para uma esperança única, Ef 4.4; para a vida eterna, 1 Tm 6.12; e para o reino e glória de Deus, 1 Ts 2.12.

3. RELAÇÃO DA VOCAÇÃO EFICAZ COM A REGENERAÇÃO.

a. Identificação de ambas na teologia dezessete. É um fato bem conhecido que na teologia do século dezessete a vocação e a regeneração muitas vezes são identificadas, ou, se não inteiramente identificadas, ao menos na medida em que a regeneração é considerada como inclusa na vocação. Diversos teólogos, dos mais antigos, têm um capítulo separado sobre a vocação, mas nenhum sobre a regeneração. Segundo a Confissão de Westminster, X.2, a vocação eficaz inclui a regeneração. Este conceito encontra alguma justificação no fato de que Paulo, que emprega a palavra “regeneração” somente uma vez, evidentemente a concebe como incluída na vocação em Rm 8.30. além disso, há um sentido em que a vocação e a regeneração se relacionam como causa e efeito. Contudo, devemos ter em mente que, ao dizermos que a vocação inclui a regeneração, ou que se relaciona casualmente com ela, não estamos pensando apenas naquilo que é tecnicamente denominado vocação interna ou eficaz, mas na vocação em geral, incluindo até mesmo uma vocação criadora. O extenso uso, nos tempos da Pós-Reforma, do termo “vocação”, em vez de “regeneração”, para designar o início da obra da graça na vida dos pecadores, deve-se ao desejo de salientar a estreita conexão entre a Palavra de Deus e a operação da Sua graça. E o predomínio do termo “vocação” na era apostólica encontra a sua explicação e a sua justificação no fato de que, no caso dos que, naquele período missionário, foram agregados à igreja, a regeneração e a vocação eficaz geralmente eram simultâneas, quando a mudança se refletia em sua vida consciente como um poderoso chamamento de Deus. Todavia, numa apresentação sistemática da verdade, devemos discriminar cuidadosamente entre a vocação e a regeneração.

b. Pontos de diferença entre a regeneração e a vocação eficaz. A regeneração, no sentido mais estrito da palavra, isto é, como nova geração, tem lugar na vida subconsciente do homem, e independe por completo de qualquer atitude que ele possa assumir com referência a ela. A vocação, por outro lado, dirige-se à consciência e implica certa disposição da vida consciente. Isto decorre do fato de que a regeneração age de dentro , enquanto que a vocação age de fora. No caso das crianças, falamos em regeneração, e não em vocação. Ademais, regeneração é uma operação criadora, hiperfísica do Espírito Santo, pela qual o homem é levado de uma condição para outra, de uma condição de morte espiritual para uma condição de vida espiritual. A vocação eficaz, por outro lado, é teológica, induz a nova vida e aponta numa direção que ruma para Deus. Ela assegura os exercícios da nova disposição e leva a nova vida à ação.

c. A ordem relativa da vocação e da regeneração. Talvez se compreenda melhor isto, se observarmos os seguintes estágios: (1) Logicamente, a vocação externa, que ocorre na pregação da Palavra (exceto no caso das crianças), geralmente precede à operação regeneradora do Espírito Santo, ou coincide com ela, operação pela qual a nova vida é produzida na alma do homem. (2) Depois, por uma palavra criadora, Deus gera a nova vida, mudando a disposição interna da alma, iluminando a mente, incitando os sentimentos e renovando a vontade. Neste ato de Deus, são implantados os ouvidos que capacitam o homem a ouvir o chamamento de Deus para a salvação das suas almas. Isto é regeneração no sentido mais restrito da palavra. Nela o homem é inteiramente passivo. (3) Tendo recebido os ouvidos espirituais, o chamamento de Deus pelo Evangelho é agora ouvido pelo pecador e é levado efetivamente ao coração, capacitando-o para compreendê-lo. O desejo de resistir é transformado num desejo de obedecer, e o pecador se rende à influência persuasiva da Palavra pela operação do Espírito Santo. Esta é a vocação eficaz, pela instrumentalidade da palavra da pregação, efetivamente aplicada pelo Espírito de Deus. (4) Finalmente, esta vocação eficaz assegura, pela verdade como meio, os primeiros exercícios santos da nova disposição que nasceu na alma. A nova vida começa a manifestar-se; a vida implantada resulta no novo nascimento. Esta é a consumação da obra de regeneração, no mais amplo sentido da palavra, e o ponto em que ela passa a ser conversão.

Agora, não devemos cometer o engano de considerar esta ordem lógica como uma ordem cronológica aplicável a todos os casos. Muitas vezes a nova vida é implantada nos corações das crianças muito tempo antes de poderem ouvir o chamamento do Evangelho; todavia, elas só são revestidas desta vida onde se prega o Evangelho. Sempre há, por certo, um chamamento criado por Deus, pelo qual a nova vida é produzida. No caso das que vivem sob a administração do Evangelho, existe a possibilidade de receberem elas a semente da regeneração muito antes de chegarem à idade da discrição e, portanto, muito antes também da penetração da vocação eficaz em sua consciência. Contudo, é muito improvável que, sendo regeneradas, vivam em pecado durante anos, e ainda depois de terem atingido a maturidade, sem darem quais quer evidências da nova vida nelas existente. Por outro lado, no caso das que não vivem sob a administração da aliança, não há razão para supor um intervalo entre o tempo da sua regeneração e o da sua vocação eficaz. Na vocação eficaz, ela se tornam imediatamente cônscias da sua renovação, e imediatamente vêem a semente da regeneração germinando para a nova vida. Isto significa que a regeneração, a vocação eficaz e a conversão coincidem.

(Teologia Sistemática – Louis Berkhof. Pg. 469)



[1] Valentine, Chr. Theol. II, p. 197, 198.
[2] Bavinck, Roeping em Wedergeboorte, p. 215.
[3] Bavinck, Roeping em Wedergeboorte, p. 217, 219, 221.